domingo, 27 de março de 2011

Diálogos de Sexta-Feira

Sexta-feira passada foi um dia rico em diálogos estranhos...

Logo pela manhã, tocam à campainha lá em baixo, eu atendo, e dá-se o diálogo:
– Bom dia! Nós somos das obras, e queremos saber se aquele carro que está ali à direita é seu?
Respirei fundo, e com toda a paciência que consegui arranjar, respondi:
– Não sei qual é a sua direita... que carro é?
– Não sei bem... acho que é um Fiat... é um carro esquisito...
Mais uma vez respirei fundo: – O meu carro está estacionado perto do caixote de lixo… será esse?
– É esse mesmo… Precisamos que o tire do sítio para trabalharmos, se faz favor.
Bem… não sei se me senti mais ofendida por chamarem o meu Toyota de esquisito ou por o confundirem com um Fiat, mas lá fui eu tirar o carro para os homens (Sabem? Aquelas criaturas que costumam dizer que percebem de carros) trabalharem…

Mais tarde, já no trabalho, lá para o fim da manhã, recebo uma chamada de uma amiga de Lisboa, que já não via há um mês:
– Olá! Quando é que chegas?
Bem, agora com o doutoramento, costumo ir todas as sextas para a capital, mas nessa não iria… e também não tinha marcado nada com ninguém. Respondi:
– Oh, querida… hoje não vou.
Ela, indignada, retruca:
– Já me podias ter dito antes, não?
Lá reuni calma outra vez, e disse-lhe: – Mas eu não marquei nada contigo hoje.
Ela, confusa, pergunta então: – Mas com quem é que estou a falar?
– Com a Etã – respondi, já percebendo o que se estava a passar.
– Ah, não era para ti que eu queria ligar… está tudo bem contigo?

Para completar, à tarde, atendo, junto com o meu coleguinha Miguel, uma família na CPCJ. O filho, um adolescente, estava a faltar às aulas, a desobedecer o padrasto e a reclamar de maus-tratos. O casal tinha ainda outra criança em idade pré-escolar em casa, fruto dessa união. Depois de desvendado todo o “mistério” da situação, vamos aprofundando as questões sobre habitação e meio de subsistência da família, e ficamos a saber:
– A culpa do menino estar assim é toda da Assistente Social. Cortou-nos os subsídios todos e a minha mulher foi obrigada a ir trabalhar com aqueles horários absurdos (9h30-15h30 e 18h30-22h30) que ela já lhes falou.
Miguel e eu nos entreolhamos, e eu respondi:
– Mas trabalhar é importante. Há muitas mães que trabalham. E o senhor, não conseguiu ainda trabalho? Qual a sua profissão?
– Eu sou pintor. Só consegui um trabalho que pagava pouco… 20 euros por dia. Assim, prefiro ficar em casa…
Na minha ingenuidade, ainda tentei argumentar:
– Mas isso é melhor do que nada, é preciso começar por algum lado…
– E com quem deixo as crianças? Sim, porque tenho duas crianças em casa! – Apressou-se a retrucar o senhor.
Continuei, ingénua:
– E os demais pais que trabalham? A pequena pode ficar na creche, por exemplo. As creches têm preços de acordo com os rendimentos das famílias.
– E quem paga?
Realmente… esses Assistentes Sociais são terríveis! Acabam com a felicidade das pessoas…

Há dias assim...

terça-feira, 22 de março de 2011

O que há mais são homens!

Seguindo a minha “fase teatral”, no sábado passado fui ver a comédia do Grupo Teatro Olimpo, “O que há mais são homens!”.
Num cenário completamente feminino, o tema girou em torno da permanente guerra dos sexos onde, de um lado, Laura, Nélia e Juliana, e do outro, o Homem, vão discutindo o porque de os homens já não serem o sexo forte.
Brincando com as diferenças entre os sexos, com os altos e baixos de um relacionamento, e com as insatisfações de parte a parte que deterioram muitas relações, o grupo aproveitou o humor para relembrar de todos aqueles “pequenos detalhes” que as mulheres dão tanta importância e os homens não.
O sistema de pontuação supostamente atribuído pelas mulheres ao desempenho global dos seus parceiros foi o marco que pontuou a diferença de visões entre os sexos.
Uma peça despretensiosa, simples, mas bem cuidada, feita a partir de um conjunto de contos de Luís Fernando Veríssimo (meu cronista favorito, como já tive o prazer de aqui anunciar), que vale cada segundo passado.

segunda-feira, 21 de março de 2011

O Discurso do Rei

Fui conferir se tudo o que diziam sobre ele era verdade no passado dia 13 de Março, e talvez as minhas conclusões possam causar uma certa polémica, mas não seria eu se não dissesse o que penso sobre o que vi.
Chamem-me preconceituosa, chamem o que quiserem mas, embora o objectivo de um filme seja encantar, cativar, convencer o espectador e, claro, ser aclamado (e premiado) por isso, sinto que o Discurso do Rei foi construído com o único intuito de angariar prémios. Apesar de sentimental, o filme não emociona propriamente (e eu sou a rainha da emoção e da choradeira!). Pareceu-me muito artificial, muito certinho…
Fora isso (e apesar disso), gostei dele na generalidade. Não nego que é um filme com grande qualidade técnica, e tenho que admitir que quer Colin Fith, quer Geoffrey Rush (especialmente Rush), estavam em “excelente forma”.
O enredo, apesar de girar em torno de um tema aparentemente simples (a gaguez) e de a ele dar demasiada importância, sobrepondo-se, inclusivamente, ao triste anúncio do início da guerra, tem aquilo de que gosto: uma análise fantástica do desenvolvimento do ser humano, dos seus comportamentos (por vezes absurdos), das suas crenças inadequadas (e o perigo que elas encerram), e do impacto psicológico que têm os acontecimentos de vida (especialmente se não forem bem reflectidos e trabalhados – ou assumidos e conversados no tempo certo, trazendo consequências para o resto da vida). Fala ainda de compreensão, resiliência e entrega. Para mim, só por isso, vale a pena ver!

As Encalhadas

Ando numa "fase teatro", mais exactamente de comédia teatral (tal como a vida de todos nós… embora eu não saiba bem precisar se é mesmo a arte que imita a vida ou se é o contrário!).
Assim, no dia 26 de Fevereiro passado, fui ver ao Multiusos, em Viseu (verdade(!) Viseu também vai tendo algumas “coisinhas interessantes” de vez em quando), a peça "As Encalhadas".
De acordo com a descrição disponível nos anúncios do espectáculo: “As Encalhadas”, com Maria João Abreu, Helena Isabel e Rita Salema, é uma comédia musical que satiriza as angústias e prazeres de mulheres de diferentes classes sociais que, em determinada altura das suas vidas, se encontram sós, privadas de amor, carinho e sexo. Aparentemente convivem bem com o problema, mas ao longo do espectáculo vamo-nos apercebendo, através dos seus monólogos nocturnos, que não é verdade. Estas mulheres, apesar de possuírem características bem diferentes, encontram dificuldades muito semelhantes ao tentar lidar com o problema da solidão. Todas as situações são apresentadas em forma de quadros bem-humorados: no ginásio, no cabeleireiro, na sex-shop, até que descobrem que possuem também em comum o mesmo homem, Ernesto, marido de Cristina, amante de Graça e reprodutor do filho de Cecília.
De acordo com a minha modesta análise, confesso que eu esperava mais. Em que pese a capacidade de improvisação e de interacção com o público que as atrizes demonstraram (umas mais que outras) ou, pelo menos, de adaptação à realidade (e à especificidade) de cada lugar onde é encenada, o texto trás algumas piadas antigas e batidas e, a mais das vezes, não surpreende muito. Deu para distrair, mas não convenceu.

terça-feira, 8 de março de 2011

Black Swan

Vi há bocadinho, e gostei tanto, que tinha que vir cá recomendar o dito cujo. O Cisne Negro conta a história de Nina, uma bailarina que vê na aposentadoria forçada da primeira bailarina do seu grupo a oportunidade para ascender, consegue o papel principal na nova montagem do clássico Lago dos Cisnes, do director Thomas, que trás apenas uma bailarina interpretando os dois personagens (incorporando tanto o cisne negro quanto o cisne branco da história original). É um filme que prende a atenção e faz pensar. De grande impacto psicológico, trás à tona algumas questões sérias do comportamento humano às quais não ficamos indiferentes (assédio, competição extrema entre colegas, conflitos, pressão familiar, auto-mutilação, bulimia). Muito bom!

Carnaval

Engraçado como quase toda a gente com quem contactei nos últimos dias me perguntou se eu ia ao Brasil pelo Carnaval. A equação é simples: Brasileiros gostam de Carnaval. Eu sou brasileira. Logo, eu gosto de Carnaval. Bem, mas a lógica nem sempre funciona comigo, e venho cá a público informar que, decididamente, não gosto de Carnaval. Não é que não goste de uma boa farra. Sou a Rainha das Farras. Quem foi à minha última festa de aniversário (40 aninhos, heim?) comprovou que gosto de dançar, gosto de samba, gosto de pular, cantar. Também não tenho nada contra fantasias e máscaras (no Dia das Bruxas até vesti a minha “segunda pele” e fiquei uma bruxinha toda jeitosa). O meu problema é com o que está por trás do Carnaval (especialmente do Carnaval brasileiro): pessoas (normalmente muito pobres) que passam o ano costurando uma fantasia caríssima (e usam muitas vezes dinheiro precioso que não têm) para usar num único dia, pessoas a cair de bêbadas andando pelas ruas (achando que isso é diversão), a exposição desnecessária, gratuita e banalizada do corpo, enfim. Poderia passar aqui um bom tempo a citar razões para não gostar da festa em si. Mas gosto do feriado, gosto de o aproveitar para descansar, viajar e (porque não?) sambar quando toca a música certa. E dizem que eu até sambo bem!

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Metade ou Inteiro?

“Porque metade de mim é amor
E a outra metade também”
(Oswaldo Montenegro)

Tenho uma amiga que se refere ao companheiro como o seu “mais-que-tudo”. Parece-me uma bonita forma de ver a pessoa que se escolhe para estar e, (quem sabe?) permanecer ao lado (para sempre ou infinitamente enquanto dure). A expressão “o meu mais-que-tudo” simboliza, a meu ver, aceitação, respeito, amor… Significa que o outro é alguém com características próprias, com qualidades e defeitos (como é óbvio, já que todos os temos), com quem se tem afinidades, por quem se sente um grande amor (e uma grande paixão), a quem compreendemos e que nos compreende melhor que os outros (ou pelo menos que faça um enorme esforço para isso).
Mas nem toda a gente pensa assim. Há os que falam em almas gémeas ou caras-metades. Tenho dificuldade em perceber isso da “nossa metade”. O que é isso, exactamente? Quando se fala em encontrar metade de nós, fala-se em encontrar algo que nos completa, algo que não temos e que devemos procurar noutra pessoa? Não me parece correcto, não me parece justo (nem connosco, nem com o outro). Arnaldo Jabor já dizia: “Não acredito em pessoas que se completam. Acredito em pessoas que se somam”. O que não temos, o que não sabemos, penso que devemos procurar adquirir, aprender e desenvolver em nós mesmos. Sobretudo porque cada ser é único e irrepetível, não adianta “pegar” na metade dos outros para juntar à nossa metade, porque não vai encaixar.
Se precisamos de encontrar metade de nós (e muitos passam a vida nessa procura), provavelmente é porque nos achamos incompletos. Talvez seja por isso que muitas relações não funcionem. Se a pessoa não se sente inteira, como poderá dar-se por inteiro? E sem nos darmos por inteiro, sem nos entregarmos a sério, como poderá resultar? É importante estar-se inteiro. Inteiro na relação, inteiro no sentimento, inteiro no compromisso. Só assim o encontro com o outro ser poderá funcionar! Digo eu…

Amar é...

“Amar… é quando não dá mais para disfarçar, tudo muda de valor…” (Roupa Nova)
“É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar para pensar na verdade não há…” (Legião Urbana)

O amor (seja de que tipo for: homem/mulher, pais/filhos, crente/Deus…) é, com toda a certeza, uma das experiências mais completas que se pode ter. Mais que um simples sentimento, o amor é uma arte, uma habilidade. Por isso, não basta encontrar alguém “perfeito” para amar. É preciso aprender a amar. E isso exige teoria e prática. Amar é dar-se, é tentar permanentemente fazer o outro feliz (e sentir-se feliz com isso). Amar é paradoxo, baseia-se no “esquecimento” de si e, ao mesmo tempo, no encontro da própria felicidade no outro. E isso não é coisa que se nasça a saber... com o passar dos anos descobrem-se sentidos, interpretam-se sentimentos e aprende-se com as experiências vivenciadas. Fantástico, não?

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Arriscar para ser feliz

O Roberto (Carlos) já perguntava, e bem: será que tudo o que eu gosto é ilegal, imoral ou engorda? A resposta, pelo menos no meu caso, é: sim. Mas também acho que isso se aplica à generalidade das pessoas. Li, certa vez, algures, que tudo o que é realmente bom nessa vida, tem um custo: o que é gostoso, engorda; o que é bonito, é caro; o sol que ilumina o rosto, enruga; e tudo o que dá prazer (rir às gargalhadas, brincar, correr, dançar, tomar banho de chuva, de rio, de mar, abraçar, beijar, tirar a roupa, fazer amor), despenteia. E eu, que gosto de todas essas boas coisas da vida (e de muitas mais), mas que também gosto de andar sempre bem penteadinha, penso cá com os meus botões: porque não? Vamos nos deixar despentear! Vamos arriscar e ser feliz! Afinal (e parafraseando o artigo que li), “sempre vai estar mais despenteada a mulher que decide ir no primeiro carrinho da montanha russa, do que aquela que decide não subir”.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Metamorfose

Como diria Raul Seixas, "eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo..." Parece uma boa filosofia. Sim, porque se estamos em constante mutação exterior, também no interior fazemos alterações. E mudar de ideias, de partido político, de gostos musicais, de preferências gastronómicas, faz parte do nosso percurso de vida.
Eu mudei! Passei por inúmeras transformações ao longo da vida (e ainda estou a passar)… fui de ovo a borboleta (e continuo para a frente e para trás, não necessariamente numa ordem definida). Hoje acordei cedo e, ao ver-me ao espelho, notei que, apesar daquela rugazinha indesejável no canto do olho, estou muito mais bonita que ontem, muito mais inteligente que ontem, muito mais sensata que ontem, muito mais tranquila que ontem. Hoje, definitivamente, sou uma borboleta!

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Paixão Emagrece, Amor Engorda

Se é verdade o que dizem – a paixão emagrece e o amor engorda –, quero estar todos os dias apaixonada!

Bem, verdade ou não, e apesar deste blog não ter o objectivo de reproduzir o que os outros dizem, quero partilhar aqui as opiniões de Sónia Hirsch, autora do livro Paixão Emagrece, Amor Engorda – Crônicas e Receitas (editora Correcotia), que me parecem fazer sentido (ehehe!):

"No início, a paixão emagrece. Ainda que o exercício seja só desfolhar o malmequer, ou apertar o celular com força, o coração dispara tanto que qualquer coisinha vale por 10 aeróbicas. E a verdade é que paixão recém-nascida é melhor que qualquer comida. Seu apetite só pode ser saciado por coisas que não engordam: pele roçando na pele, mão esbarrando na mão, olhares que dizem tudo, beijos suspensos nos lábios. Muitas dúvidas – Será que é paixão correspondida? Estará mesmo livre aquele coração? O sono diminui, a adrenalina corre proporcionando reflexos rápidos, os olhos brilham. Dançar, cantar, dar risada, tudo o que é bom fica fácil. E o corpinho? Afina. Cada suspiro consome 100 calorias. Até que, de repente, o desejo se realiza. Bem-me-quer, bem-me-quer! As bocas recheadas de beijos, a vida uma roda gigante, comer para quê se o bom é amar, amar, amar? Noites movimentadas e dias à espera das noites: desnecessário também dormir. O sonho já virou vida e a vida virou estar junto. O resto se ajeita entre um encontro e outro, um telefonema e outro. Se não me engano foi Freud quem disse: a paixão são dois náufragos agarrados na mesma tábua. Magros. Aí, passado algum tempo, a paixão começa a se transformar em amor. Nossos náufragos chegam à segurança da ilha e resolvem cuidar juntos da vida, construir uma cabana e arranjar coisas para... comer. Afinal, eles merecem! Conquistaram o coração um do outro, isso não acontece todo dia, e tome celebração. É café na cama aqui, almoço ali, ceia acolá, uma viagem de férias cheia de comidas típicas, bebidas deliciosas, sobremesas fartas, e o prazer da intimidade matinal se prolonga até mais tarde, abrindo o apetite para novidades. Que a novidade já não é o outro, mas tudo o que se faz junto, tudo o que se gosta, tudo o que se adora. E pode haver algo mais adorável, excitante e gratificante do que descobrir que se gosta da mesma comida? O amor come, o amor cozinha. O amor chama o amor de minha doçura e dá chocolates caros de presente. Compra vinhos, queijos e outras delícias. Comemora na mesa os sucessos da cama e o passar dos dias, dos meses, do ano – Já um ano? Então, festa! Alegria, alegria! E assim o amor engorda. O amor que engorda põe um olho no espelho e outro no outro, para ver se engordaram os dois. Bingo. Bochechinhas, pneuzinhos, a cintura apertada pedindo discretamente para desabotoar o jeans... E aí, de duas, uma: ou vão ambos malhar na academia ou começam achegar com umas roupinhas novas, larguinhas, mais confortáveis para ficar em casa, grudadinhos, vendo filmes e comendo pipoca. Os da academia renovam a vida, se animam para um spa, resolvem caminhar de manhã e pedalar aos domingos; conhecem pessoas novas e de repente até se apaixonam de novo um pelo outro. Ou por outros. Os das roupinhas largas, cada vez mais largas, em breve vão precisar de afrodisíacos. Ostras, lagostas, caviar, fígado, rins, testículos e miolos têm reputação de dar muita energia sexual. Temperos como pimenta, canela, noz-moscada, cravo, açafrão, baunilha e gengibre estimulam a circulação, portanto podem auxiliar o sangue a chegar mais abundantemente às zonas prazerosas. Champanhe tem fama de liberar a libido mais do que qualquer outro vinho, e alguns alimentos são tidos como realmente excitantes: aspargo, aipo e alho-poró por causa da forma, faisão e pombo pelo arroubo amoroso. Um menu afrodisíaco citado pelo Larousse Gastronomique, a quem interessar possa: sopa de tartaruga com âmbar gris, linguado à moda normanda, filé de rena com creme de leite, pombo jovem assado, aspargos ao molho holandês, salada de agrião, pudim de tutano, vinhos do Porto e bordeaux, e finalmente café. Se funciona, não se sabe; mas que engorda, engorda."

Vou já tratar de me apaixonar! Parece melhor que qualquer dieta!

Espero que passe!

A minha irmãzinha mais nova andava revoltada noutro dia, e com razão. É que a fazer zapping na Tv, ela passou alguns minutos parada em frente a um programa da tarde de domingo na Record, e ficou assustada com a cada vez mais crescente falta de qualidade do que actualmente estão a produzir no vasto universo da música brasuca.
Não é que no “nosso tempo” já não se fizesse “porcaria”… é que agora a coisa parece mais grave, porque a juventude (que é quem vai continuar a escrever a nossa história) está cada vez mais alienada e desconhecedora do que é a chamada “música boa” da minha terrinha (aquela com conteúdo, letra com princípio, meio, fim e um sentido...).
Às vezes fico com pouca vontade de voltar… Sinto-me como aquele náufrago que, sendo salvo, fica a saber das novidades da sua terra... e prefere "voltar para a ilha"... Espero que isso passe!

Violência no Namoro

Estou preocupada, e a noite passada cheguei a dormir mal por causa disso...

A violência dentro do casamento (ou de uma união de facto) é um tema, infelizmente, bem conhecido. Mas já há alguns anos, vários estudos têm demostrado que a violência começa no namoro e, o que é pior, na adolescência.
Ser-se violento numa relação não é apenas dar murros e pontapés. O mais comum, na verdade, é a violência emocional (insultos, humilhações, ameaças) e a pequena violência física (bofetadas, empurrões). Para se ter uma ideia, estima-se que 25% dos jovens já tenham sido vítimas de violência dentro duma relação de namoro, o que é assustador!
Há vários mitos e dificuldades associadas quando um casal de namorados começa a viver uma relação violenta. Nem sempre a violência incide sobre o chamado "sexo fraco", mas a verdade é que na grande maioria dos casos é o rapaz quem a exerce. O site da Associação de Mulheres contra a Violência (http://www.amcv.org.pt/amcv_files/violencia/box_violencianamoro.html) aponta alguns desses mitos:

Mito: A violência no namoro não é uma situação comum nem séria.
Realidade: A violência não é apenas um problema de adultos, também ocorre nas relações amorosas entre adolescentes.

Mito: As adolescentes gostam dessas relações ou não continuariam com o namoro.
Realidade: As adolescentes mantém as relações de namoro por várias e complexas razões, nunca por gostarem de ser abusadas. Ninguém se mantém numa relação de abuso porque gosta, e sair duma relação violenta pode ser um processo muito difícil.

Mito: Um rapaz grita ou bate porque gosta da namorada.
Realidade: Os rapazes que agem dessa forma estão a usar a violência para controlar a namorada. Gostar de alguém quer dizer respeitar a pessoa não a agredindo.

A violência entre namorados é um crime punível por lei (Código Penal, artigos 143º e seguintes), mas é preciso que seja o agredido (especialmente se for maior de idade) a apresentar a queixa.

Artigo 143º
Ofensa à integridade física simples
1 - Quem ofender o corpo ou a saúde de outra pessoa é punido com pena de prisão até 3 anos ou com pena de multa.
2 - O procedimento criminal depende de queixa, salvo quando a ofensa seja cometida contra agentes das forças e serviços de segurança, no exercício das suas funções ou por causa delas.
3 - O tribunal pode dispensar de pena quando:
a) Tiver havido lesões recíprocas e se não tiver provado qual dos contendores agrediu primeiro; ou
b) O agente tiver unicamente exercido retorsão sobre o agressor.
(redacção da L 100/2001 de 25/08)

Artigo 144º
Ofensa à integridade física grave
Quem ofender o corpo ou a saúde de outra pessoa de forma a:
a) Privá-lo de importante órgão ou membro, ou a desfigurá-lo grave e permanentemente;
b) Tirar-lhe ou afectar-lhe, de maneira grave, a capacidade de trabalho, as capacidades intelectuais ou de procriação, ou a possibilidade de utilizar o corpo, os sentidos ou a linguagem;
c) Provocar-lhe doença particularmente dolorosa ou permanente, ou anomalia psíquica grave ou incurável; ou
d) Provocar-lhe perigo para a vida;
é punido com pena de prisão de 2 a 10 anos.
Pode ser apresentada queixa em qualquer posto da PSP ou GNR.

É urgente mostrar aos nossos jovens que gostar de alguém não é fazer sofrer... Mas não é fácil!

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Eleições como devem ser!


Tirei o meu título de eleitor antes mesmo de fazer 18 anos. Lembro-me que estava ansiosíssima para exercer o meu “direito de voto” na altura… só depois percebi que, a partir dos 18 anos, votar no Brasil era uma obrigação. Ora, quando somos obrigados a fazer algo, a coisa muda de figura e deixa de ser exercício de direito para ser coerção.
Em que pesem as “desculpas” que se foram arranjando ao longo de todos processos eleitorais brasileiros (se não for obrigado, o povo não comparece às urnas; o povo é preguiçoso, se não for obrigado, não sai de casa para votar; o povo não é politizado, tem que ser levado a exercer o seu direito), o certo é que a obrigatoriedade do voto fere a essência da democracia, fornece alicerce a formas arcaicas de dominação política (os currais eleitorais), e baixa a qualidade da escolha.
Para os brasileiros que vivem no estrangeiro, então, a situação toma contornos absurdos. Nas últimas eleições, tive que ir duas vezes num mês ao Porto (com todas as despesas que isso acarreta), somente para carregar num botão, e exercer o meu “direito obrigatório”.
O ex-presidente da República e agora senador Itamar Franco, pelos vistos propôs o fim do voto obrigatório na comissão da reforma política.
“Em relação ao voto obrigatório, o senador acredita que ele "deixa de ser consciente" a partir do momento em que uma viagem passa a ser mais importante do que o direito de exercer a escolha dos governantes. "A eleição vai para o segundo turno, mas aí o sujeito já marcou as férias, o feriado com a família. Aí o voto obrigatório deixa de ser consciente", alega. Nas eleições de 2010, mais de 29 milhões de brasileiros (21,5% do eleitorado) não votaram no segundo turno, dia 31 de Outubro, no meio do feriado de Finados”. (O Documento, Cuiabá/Várzea Grande, 18/02/2011).
E fez-se luz! Tomara que passe!

domingo, 21 de novembro de 2010

Outono





Por ser a estação das flores chamam a Primavera de estação das cores…. Mas já viram quantas cores trazem o Outono? É divinamente lindo! As árvores pintam-se de amarelos, laranjas, castanhos e vermelhos… as folhas caem formando um tapete espesso… a chuva (miúda, muitas vezes graúda) ajuda a dar o tom de melancolia… uma melancolia boa, suave… Nas ruas, o cheiro das castanhas a assar em cada esquina relembra-nos que chegou a estação das folhas, das vindimas, do início das aulas para a criançada, do frio e do vento forte. Chegou a hora de sentar em frente da lareira, com uma manta quentinha, um bom livro e um copo de vinho tinto e… viajar! E, no meio disso tudo, ainda tem o “Verão de São Martinho”… com o sol a quebrar os dias frios. Nunca o sol é tão bem vindo como no Outono!

sábado, 20 de março de 2010

Los Olvidados

O filme que deu a Buñuel, em 1950, o prémio de Melhor Realizador no Festival de Cannes, foi exibido no passado dia 16 pelo Cine Clube de Viseu. Eles pediram que eu fosse fazer o tradicional comentário no final. Logo eu, que nada entendo de cinema! Mas acho que cumpri o meu papel, porque na verdade fui lá na qualidade de responsável por um Lar de Infância e Juventude da cidade e, portanto, na qualidade de alguém que percebe qualquer coisa sobre “os esquecidos”…
De facto, Buñuel, já naquela época, demonstrava uma extraordinária visão crítica sobre o abandono infantil, sobre o descaso dos adultos frente à injustiça que atira crianças inocentes para as ruas e para a desesperança. Ele já abordava e questionava o Estado em si, que deixa os mais indefesos (e a quem deveria proteger) viverem na mais completa tristeza e desolação.
“Los Olvidados” retrata os desamparados pelo mundo dos adultos que, preocupados em impor a lei e a disciplina, negam-lhes amor, carinho, afecto e compaixão.
No filme, o menino Pedro se envolve com os rufias liderados por “El Jaibo” que, para vingar-se de quem supostamente o entregou à polícia, assassina Julian, um jovem arrimo de família que tem que lidar diariamente com um pai alcoólico. A fim de conquistar o amor da mãe, Pedro emprega-se como aprendiz de ferreiro, mas é acusado de um roubo que não cometeu e vai para o reformatório (a escola-granja).
Pedro admite não ser um bom rapaz, afirma que deseja mudar, mas não sabe como. Os seus actos são pautados pelos impulsos, pelos desejos e pelas emoções, como na cena em que, com raiva e desconhecendo o motivo, mata umas galinhas à paulada.
Em “Los Olvidados”, quase todos os adultos são personagens ausentes, frios ou maus: a mãe de Pedro, que o odeia e que o chama de vagabundo; o pai de Ojitos, que o abandona à própria sorte na feira; os pais que Jaibo nunca conheceu; o avô surdo de Metche, mais zeloso com os animais do que com a neta; o pedófilo que aborda Pedro em frente à montra da loja; o velho cego que escraviza Ojitos, assedia Metche e provoca a morte de Jaibo.
Interessante o papel do director do reformatório e do juiz que tenta fazer a mãe de Pedro perceber que era sua responsabilidade cuidar do filho, dar-lhe amor e compreendê-lo, actos que provavelmente evitariam a sua institucionalização.
O filme começa por projectar (mesmo almejar) um futuro que possa dar respostas às perguntas que ele faz. Um futuro onde os seres humanos encontrem alternativas para as situações descritas na película. Situações estas vividas nas ruas da Cidade do México, mas que se poderiam passar em Paris, New York, São Paulo, Rio de Janeiro, Lisboa, ou mesmo Viseu.
Algumas coisas mudaram desde então, mas não me parece ainda de todo suficiente!

domingo, 7 de março de 2010

Le Jardin

“Le Jardin”, do Atelier Lefeuvre e André (França), um espectáculo de destrezas circences (acrobacia, malabarismo e magia), recheado de humor (mas sem palavras), e carregado de luz, sombras e poesia (sentida através das expressões faciais dos artistas), esteve na passada sexta-feira no Teatro Viriato.
“Le Jardin” é uma (história?) que serve para meditar sobre o ser humano.
Através de um duelo, que decorre dentro de uma grande estufa, dois jardineiros passam o tempo a tentar mostrar quem é o melhor, numa alusão ao humor visual, onde se destaca a agilidade física dos intérpretes, e a criatividade com que utilizam objectos simples de jardinagem (como duas pás usadas como degraus de escada) para fazer rir.
Outro que valeu a pena!

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Ruas da Amargura

O documentário de Rui Simões, exibido este mês (dia 9) pelo Cine Clube de Viseu, e que contou com a presença do realizador para um pequeno debate no fim, trata de questões sociais importantes vividas nas ruas de Lisboa. Questões como o alcoolismo e a toxicodependência, a prostituição e a falta de teto para morar, a busca de um lugar melhor para construir a vida, as carências afectivas e financeiras de gente como a gente, que simplesmente quer viver e ser feliz.
Trata também de outras gentes... as que estão dispostas a ajudar e a acreditar em dias melhores, as que mesmo diante de tanta amargura não desistem de dar de si por uma causa que, à partida, parece perdida.
Um excelente olhar sobre uma realidade que muitos tentam ignorar e, até, esconder. Valeu o tempo passado na sala fria do IPJ!

Amarelo Manga

O projecto liderado por dois pernambucanos (de Recife), a cantora Lilian Raquel e o guitarrista Cláudio César Ribeiro, foi apresentado hoje na Fnac (Viseu), e eu que não os conhecia fiquei encantada! Os originais "Aonde ela me levar", "Verso preso" e "A promessa" fazem uma pessoa viajar... e mostram que a música popular brasileira é uma fonte inesgotável de surpresa e prazer.

Contos em Viagem

Contos em Viagem - Brasil, Outras Rotas é mais uma "aventura" da companhia portuguesa Teatro Meridional, que foi apresentada no palco do Teatro Viriato no final de semana e a que fui assistir ontem. A rota tem como pano de fundo o Rio São Francisco (o velho Chico), que atravessa cinco estados brasileiros: Minas, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe.
De textos escolhidos de escritores nascidos naqueles estados (Adélia Prado, Afonso Romano de Sant'Ana, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, João Guimarães Rosa, João Ubaldo Ribeiro, Jorge Amado, Lêdo Ivo e Mauro Mota), construiu-se essa produção, com música produzida em palco (pelo português António Pedro), que nos faz viajar verdadeiramente pelos costumes das gentes, pela geografia dos lugares, pelas paisagens e pelas personagens que se vão "encontrando" ao longo da espectacular performance da brasileira Gina Tocchetto.
Senti-me em casa!

Vai-se Andando

Esta comédia, que no passado dia 19 fui ver no Teatro Viriato, fala de Portugal e dos portugueses, das suas mais patéticas características, das suas manias e trejeitos, dos seus preconceitos e do seu conformismo, num monólogo interessante de José Pedro Gomes, apenas interrompido por alguns protestos (sob a forma de cacarejo) do enorme galo de Barcelos (um dos símbolos nacionais) insuflável que o acompanha em palco.
Vai-se andando é uma expressão comum, utilizada como resposta nas mais variadas situações em Portugal, e esta comédia explora todas elas... da sexualidade ao clima, passando pela comida, o modo de comer ("a capacidade enfardadora de uma beleia") e o trabalho.
O texto, escrito por diferentes nomes do humor português (Eduardo Madeira, Luísa Costa Gomes, Marco Horácio, Nilton, Nuno Markl, Filipe Homem Fonseca, Henrique Dias e Nuno Artur Silva), é uma autocrítica inteligente que cria cenários fantasiosos (e, talvez, possíveis?) como o de Portugal transformado numa estância turística dirigida pelo Presidente Bolinha, após uma reflexão sobre a ineficácia da colonização, a importância da miscigenação e a influência dos "novos portugueses" no futuro.
É riso garantido do princípio ao fim!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

35 Rhums

Acabo de chegar de mais uma sessão do Cine Clube de Viseu. Em cartaz estava uma produção francesa, uma história sobre pessoas, sobre vidas simples, sobre o amor, o medo do futuro e da ausência do outro, sobre o sentimento de dependência e, principalmente, sobre a angústia da mudança nas diferentes fases normativas da vida.
O filme baseia-se na relação entre um pai e uma filha. Ele é Lionel, um maquinista honesto, mas tristonho, que depois da morte prematura da mulher dedicou a vida a cuidar da filha, Josephine, uma estudante universitária.
A relação que os une é assente no respeito e na cumplicidade e, apesar de parecer que não precisam de ninguém, partilham o seu pequeno mundo com dois vizinhos (uma ex-namorada apaixonada por Lionel, e um rapaz órfão e solitário apaixonado por Josephine), que moram no mesmo prédio nos subúrbios de Paris, e acabam por viver como uma família.
As cenas são centradas no quotidiano. A melhor, na minha opinião, é efectuada sem diálogos, apenas com música. Retrata uma noite chuvosa quando os protagonistas vão a um concerto, o carro avaria antes de chegarem, e eles entram num café, onde são bem acolhidos pela proprietária e passam bons momentos a dançar e a interagir sem palavras.
No entanto, senti que apesar da intensidade do que se queria transmitir e das interpretações especialmente boas (sem qualquer dúvida), o filme deixa um tanto a desejar, não suscitando grande emoção nem quando Lionel encontra o colega dos caminhos-de-ferro que se tinha acabado de suicidar.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Jazz no Teatro

O Foyer do Teatro Viriato de Viseu recebeu na quarta-feira, dia 13 de Janeiro, o Trio Luís Figueiredo. O líder do colectivo, pianista que se tem dedicado ao jazz, fez-se acompanhar de dois experientes e notáveis músicos portugueses: Nélson Cascais (contrabaixo) e Bruno Pedroso (bateria). Juntos, deram um espectáculo deveras agradável e fácil de ouvir. Amei!

Welcome

As sessões do Cine Clube de Viseu continuam a acontecer todas as terças-feiras no auditório do IPJ.
No passado dia 12, fui lá conferir uma delas.
Confesso que fui porque a sessão era uma parceria com a REAPN e porque o Zé Machado me convidou, mas fiquei 100% satisfeita.
O filme? Welcome, um filme francês (de Philippe Lioret) de 2009, premiado na Europa e que retrata a questão da imigração de uma maneira bastante tocante e real.
É a história de Bilal, 17 anos, que deixou o Iraque depois de a sua namorada ter emigrado para o Reino Unido. Vive uma viagem aventureira a pé pela Europa só para a voltar a ver. No Norte de França, a caminhada chega abruptamente ao fim, porque ele é descoberto a tentar viajar clandestinamente para a Inglaterra dentro de um camião. Bilal e Mina estão separados pelo Canal da Mancha – o mais movimentado do mundo. O jovem então conhece um nadador que, actualmente, é professor de natação (Simon) na piscina local, onde ele passa a treinar com o objectivo de passar o Canal. Simon queria impressionar a ex-mulher, mostrando que tem valores e que se preocupa com os outros, mas acaba por se envolver realmente com o rapaz e ajuda-o até onde pode.
Um filme intenso, profundo, real (mais do que muitos pensam). Trata de justiça, de direitos humanos, de humanidade. Vale mesmo a pena!

domingo, 10 de janeiro de 2010

Touradas de guarda-chuva, estacionamento distorcido e outras questões sérias

Há uma coisa que me incomoda há muito tempo, mas neste novo ano resolvi falar dela. Não sei o que se passa com as pessoas, mas quanto mais se fala em cidadania, em respeito pelo próximo, em civilidade, menos eu vejo isso. O ser humano está a perder valores importantes, sem os quais, certamente, caminharemos para uma grande desordem.
Ora vejamos exemplos simples como cuspir para o chão, deitar papel fora do caixote de lixo, permitir que a sujeira feita pelo animal de estimação fique exposta na calçada para alguém pisar, parar em segunda fila atrapalhando o trânsito, entre outros, fazem com que a sociedade demonstre que cada vez menos se está a preocupar com o próximo.
Mas hoje quero falar concretamente de duas situações que me incomodaram e incomodam bastante nos últimos tempos:
Estamos em pleno inverno e o guarda-chuva é peça essencial da indumentária de quem anda a pé, mas o problema é que as pessoas não sabem andar com o guarda-chuva aberto. As ruas de Viseu são estreitas, as calçadas são pequenas e, normalmente, quando vejo um guarda-chuva a vir na minha direcção, desvio-me para o lado, levanto o meu próprio guarda-chuva (se a pessoa for mais baixa que eu) ou inclino o instrumento para o lado menos ocupado da calçada (se se trata de alguém mais alto), enfim... faço a minha parte. E o que eu encontro? Não sei, mas o cenário que isso me faz lembrar são touros enfurecidos. As pessoas abaixam os seus guarda-chuvas, como que a proteger o rosto e enfrentam a multidão de outros guarda-chuvas como se de uma guerra se tratasse, batem, empurram e não pedem desculpas... enfim, não há o mínimo respeito e cuidado!
E os estacionamentos? Na frente do meu prédio, os carros estacionam em espinha, e mesmo assim, os lugares escasseiam. Até aí tudo bem, não fosse um vizinho (ainda não descobri quem é) que invariavelmente para o seu carro em espinha invertida, ocupando dois, e às vezes três lugares de estacionamento. E muitas vezes deixa lá o carro dias inteiros. O que lhe passará pela cabeça? Onde ele acha que está para tornar-se "dono" da rua desta maneira? Onde andará o civismo, o respeito pelo próximo?
Já experimentaram ir a um centro comercial às vésperas do Natal? Eu já, e não recomendo isso a ninguém. São carros a mais, pessoas a mais, consumo a mais (isso merece outro post)... Mas estacionar no centro comercial nessas alturas é mesmo uma questão complicada, especialmente quando um carro ocupa o lugar de dois e pessoas não-deficientes ocupam o lugar reservado aos deficientes. E cá voltamos outra vez a interrogar-nos sobre onde andará o civismo deste povo?
Quem tiver a resposta, por favor, manifeste-se!

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Escolaridade obrigatória?

Não tenho acompanhado as últimas notícias sobre o tema (nem sei se houveram novos desenvolvimentos desde então), mas quando o Sr. Eng. Sócrates anunciou no congresso do PS, a intenção de tornar a escolaridade obrigatória até ao 12º ano, e disse que a maneira de o conseguir será através da concessão de bolsas de estudo aos alunos mais pobres com idade compreendidas entre os 15 e os 18 anos de idade, fiquei um tanto assustada.
Isto porque, ao reflectir sobre o actual sistema de ensino, chego à conclusão de que muito chão temos para andar antes de complicarmos as coisas ainda mais.
Ora vejamos: o ensino pré-escolar anda na corda bamba, e os alunos que o frequentam vão pouco ou nada preparados para o ensino primário; este tem regras cujo entendimento ultrapassam os limites do razoável (com alunos que concluem o 1º ano sem saber ler nem escrever - porque não tiveram grande preparação ou outra qualquer razão - e passam para o 2º ano - só para acompanhar o grupo turma - onde vão enfrentar uma classe que está a aprender conteúdos que eles nem sonham existir, e onde o(a) professor(a) não lhes vai dar a atenção necessária - nem a que certamente gostaria, dificultando ainda mais a sua aprendizagem); o ensino a nível do 2º ciclo, do 3º e do secundário também apresenta as suas lacunas, com a possibilidade de passar alunos com notas negativas a várias disciplinas importantes; e o ensino superior acabou de sofrer modificações severas, sendo encurtado (talvez um dia eu ainda comente isso aqui). Isto para não falar das taxas de insucesso e de abandono escolar, e dos problemas entre os professores de todos os níveis de ensino e as suas respectivas tutelas.
Apesar de concordar que o acesso à escola pode vir a ser uma possibilidade de distinção entre as pessoas, uma forma de proporcionar aos jovens maiores recursos pessoais e profissionais (socialização, conhecimentos etc.), de forma a ajudá-los a enfrentar de maneira mais eficaz o mundo que os rodeia, não posso deixar de ficar preocupada com a ideia de se "obrigar" esses mesmos jovens a fazerem algo que não querem.
Até porque, ninguém pode ser obrigado a aprender (princípio básico de qualquer lição de pedagogia). E, creio eu, mais relevante do que ser obrigado a frequentar a escola até aos 18 anos de idade, é aprender enquanto se frequenta a escola, já que a ideia central da frequência escolar não é apenas "andar por lá", mas sim adquirir os conhecimentos considerados adequados a cada ciclo de estudos.
Obrigar quem não quer estudar a frequentar a escola até aos 18 anos de idade é, talvez (e sem exagero), uma forma de introduzir no ambiente escolar mais tristeza, mais mágoa, falta de disciplina e, até, violência (como se não bastasse a que já temos).
Jovens com 16, 17 e 18 anos que não querem estudar deveriam ser incentivados a trabalhar, e oferecer-lhes uma bolsa de estudo para fazerem o que não gostam parece-me constituir-se numa ofensa aos que querem estudar e esforçam-se para isso, apesar das muitas dificuldades que também possam enfrentar.
Pena que no meio de tudo isso, o que conte mesmo sejam os números: a redução do índice de desempregados no país (se esses jovens que não querem estudar estiverem a frequentar o ensino já não serão desempregados), o aumento da taxa de conclusão do secundário, entre outros.
Para mim, o certo seria investir na qualidade das escolas e no acesso a elas, ao mesmo tempo que se criam as condições para que as famílias e os jovens percebam a importância da educação e nela invistam. Demora mais tempo, mas obtém-se os mesmos desejados números. Tenho a certeza!

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Tempo de barulho

Nem sempre o que dizemos encerra o que queremos dizer. Na verdade, e a mais das vezes, o que não dizemos (ou o que calamos) reflecte muito do que queremos expressar.
De facto, para opinar não é necessário chamar a atenção de tudo e de todos em voz alta.
Não estou a falar de opiniões gratuitas (do tipo falar só para não ficar calado), mas de opiniões reflectidas, com conhecimento. Estou a falar de opiniões sobre os acontecimentos que, directa ou indirectamente, afectam o nosso dia-a-dia e ajudam a mudar o rumo da nossa "caminhada".
Sendo assim, será o barulho o oposto do silêncio? Não creio... Até porque há imenso barulho no silêncio!
Uma das coisas fantásticas da suposta democracia em que vivemos é a liberdade de expressão. Através desse direito podemos exercer o nosso dever de participar activamente da nossa sociedade.
Mas será que o fazemos com consciência e em prol de valores realmente importantes? Será que as nossas opiniões estão a ajudar a construir e a fazer alguma diferença à nossa volta?

domingo, 31 de maio de 2009

Tempo de silêncio

Pois é, pessoal... andei "desaparecida" por uns tempos. Três meses de ausênica, mas finalmente estou de volta.
Mas não me vou pôr aqui com justificações para o meu silêncio prolongado, não se preocupem. Apenas digo que, às vezes, é necessário um pequeno afastamento para reorganizar as coisas (ideias, sonhos, vida...).
Mas pronto! Já estou de volta! E desta vez, espero, para ficar...

domingo, 1 de março de 2009

Malba Tahan

Remexendo as minhas memórias de infância, lembrei-me do tempo em que vivemos no Recife, lá pelos meus 12 anos. A nossa casa tinha uma grande biblioteca, que cobria três paredes (do chão ao teto) do escritório do meu pai, onde eu costumava passar horas e horas a “devorar” livros.
Havia uma colecção de capa dura, da qual nunca me esquecerei. Eram livros de Malba Tahan, pseudónimo de Júlio César de Melo e Sousa, que nasceu no Rio de Janeiro, a 6 de Maio de 1895, e faleceu no Recife, a 18 de Junho de 1974.
Além de escritor, Júlio César (ou Malba Tahan) foi também matemático. O livro dele que mais me marcou foi O Homem que Calculava, um romance premiado pela Academia Brasileira de Letras, que já ultrapassou a 45ª edição, vendeu mais de dois milhões de exemplares, e foi traduzido para o alemão, inglês (nos Estados Unidos e na Inglaterra), italiano, espanhol e catalão, sendo indicado como livro paradidáctico em vários países, citado pela Revista Book Report, e em várias publicações do género. Narra as aventuras e proezas matemáticas de um calculista persa na Bagdad do século XIII.
É engraçado como, muitas vezes, o presente não é um preditor linear do futuro. Se assim o fosse, poder-se-ia dizer que Júlio César nunca seria escritor, e muito menos matemático.
Ora vejamos, aos dez anos de idade, foi enviado pelo pai ao Rio de Janeiro (a família residia em Queluz, interior de São Paulo), onde se deveria preparar para o Colégio Militar. Coube ao seu irmão, João Batista, por ser o mais velho, a tarefa de o orientar e, mais que isso, fazê-lo estudar. Preocupado, João Batista escreveu certa vez ao pai, informando sobre o irmão:
– Não sei como o Julinho se vai sair no exame: escreve mal, e é uma negação a matemática.
Contrariando as previsões pessimistas do irmão, Júlio César ingressou no Colégio Militar em 1906, e ali permaneceu até 1909, quando se transferiu para o Colégio Pedro II, onde não foi um bom aluno a matemática, chegando a tirar um dois (em 10 valores) a álgebra, e cinco numa prova de aritmética. Criticava veementemente a didáctica da época, que classificava como um "detestável método de salivação".
Vocacionado para o magistério, concluiu o curso de professor primário na Escola Normal do Rio de Janeiro e, depois, diplomou-se em Engenharia Civil pela Escola Politécnica, em 1913.
Iniciou as suas actividades profissionais como servente e auxiliar interino da Biblioteca Nacional, privilegiada oportunidade de conviver com milhares de livros. A sua carreira de professor começou nas turmas suplementares do Externato do Colégio Pedro II. Depois, assumiu a docência na Escola Normal, leccionou para menores carentes, e tornou-se catedrático do Colégio Pedro II, do Instituto de Educação, da Escola Normal da Universidade do Brasil e da Faculdade Nacional de Educação, onde recebeu o título de Prof. Emérito.
Nas aulas, trabalhava com estudo dirigido, manipulação de objectos e propôs a criação de laboratórios de matemática em todas as escolas.
Em 1919, depois de tentar inutilmente publicar alguns artigos seus no jornal O Imparcial, onde trabalhava, Júlio César convenceu o editor a publicar os artigos de um certo R. S. Slade que, segundo ele, estava fazendo enorme sucesso nos Estados Unidos. O primeiro de todos os artigos publicados com o pseudónimo R. S. Slade foi A vingança do Judeu.
Entre 1918 e 1925, Júlio César estudou árabe, leu o Talmude e o Corão, estudou História e Geografia do Oriente e, combinado com Irineu Marinho, do jornal A Noite, inventou o personagem Ali Iezid Izz-Eduim Ibn Salim Hank Malba Tahan, tendo inclusive criado uma biografia para ele. O personagem fictício, que assinaria os seus livros a partir dali, nasceu em 1885 na Arábia Saudita, e bastante jovem foi prefeito de El Medina. Com a herança do pai, Tahan ficou riquíssimo e viajou por vários países como a Rússia, a Índia e o Japão, morrendo em 1921, na luta pela libertação de uma tribo na Arábia Central. Para maior verosimilhança foi criado também um "tradutor" para a obra de Tahan, o professor Breno de Alencar Bianco. O jornal começou a publicação dos Contos de Malba Tahan, com a biografia do suposto autor.
O nome Tahan foi tirado do sobrenome de uma de suas alunas (Maria Zachsuk Tahan) e significa moleiro. O nome Malba significaria oásis. A mudança de nome tornou-o tão famoso que o presidente Getúlio Vargas o autorizou a usar o nome Malba Tahan na sua cédula de identidade.
Júlio César só saiu do Brasil para visitar Lisboa, Montevideu e Buenos Aires. Jamais esteve no Oriente. Nunca viu um deserto.
Com o pseudónimo de Malba Tahan, e com o seu nome verdadeiro, publicou cerca de 120 livros. Sua obra é bastante diversificada: trata de matemática, didáctica, romance, contos orientais, contos infantis, teatro, contos morais-religiosos, temas brasileiros etc. Segundo a sua biografia, o seu livro preferido era A Sombra do Arco-Íris, mas eu recomendo a leitura de todos!

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Visita poética

Noutro dia, recebi (ou melhor, o blogue recebeu) a visita de um poeta (José António Cavalcanti) lá do outro lado do oceano. Não o conheço, nem aos seus escritos, mas retribuí a visita (e a simpatia), e encontrei algumas coisas interessantes:

Porque te amo?
Não há respostas.
Meu amor é um míssil.
Secreta ogiva segreda
inaudíveis palavras de amor.
Infelizmente
você não acciona o controle remoto.
Disparo meu último foguete.
Acciono o pavio,
porém você não detona.
Então, amor, afundo
e não volto à tona.

Para Creuza
(...)
O poema pode não mudar o mundo,
mas ilumina o caminho do homem.

Nau sem rumo
Não preciso de cartas de navegação:
basta-me o sonho de travessias impossíveis.
(...)

Acho que vale a pena conferir:

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Rachel Getting Married

Pelos vistos estou numa fase “cinema”, porque o grande ecrã tem atraído bastante a minha atenção ultimamente.
Ontem à noite fui com o meu filhote ver O Casamento de Rachel. Ele não gostou, mas eu não sou da mesma opinião.
O Casamento de Rachel” é um drama dirigido por Jonathan Demme (de O Silêncio dos Inocentes), gravado com uma aparência de filme independente, como se o espectador lá estivesse de câmera na mão. A trilha sonora vem dos músicos que ensaiam para o casamento que dá nome ao filme.
O enredo mostra Kym (Anne Hathaway, que está simplesmente brilhante e verdadeira na sua actuação), uma jovem toxicodependente, que consegue uma dispensa do seu internamento clínico, para assistir ao casamento da irmã. À chegada, encontra uma recepção ríspida, carregada de fantasmas do passado.
Repleto de traumas e conflitos familiares, o filme mostra uma família que se ama e se odeia ao mesmo tempo, mas com capacidade para superar os seus problemas em benefício de todos.
Não se pode dizer que seja o filme do ano (certamente não é para todos os gostos), mas, não sendo original na trama, acaba por prender a atenção, ao mostrar a dificuldade de amar e de ser amado, de pedir desculpas e de perdoar, de conviver com fraquezas e frustrações e seguir em frente, apesar disso.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Quem quer ser bilionário?

Hoje fui sozinha ao cinema! Nunca tinha feito isso, mas todas as pessoas que eu conheço (e que me poderiam acompanhar) já tinham visto o filme que eu queria, então lá fui eu, após o trabalho. Para não variar, como a sessão era cedo (fui à das 17h10), a sala estava quase vazia (havia somente um casal além de mim). Comprei a minha pipoquinha e o meu Sumol de laranja (que eu não gosto, mas eles não vendem nada melhor), e me instalei numa cadeira qualquer (tinha muito por onde escolher).
Fui ver o “Quem quer ser bilionário?” (título português) ou "Slumdog Millionaire" (título original), de Danny Boyle.
O filme conta a história de Jamal Malik, um órfão de 18 anos dos subúrbios de Mumbai que, apenas a uma pergunta de ganhar os incríveis vinte milhões de rupias (cerca de 300 mil euros) da versão indiana do concurso “Quem quer ser milionário”, é denunciado à polícia pelo apresentador do programa, por suspeita de fraude. Na esquadra, Jamal conta à polícia a história da sua vida nas ruas, e as suas aventuras para reencontrar a rapariga que ama desde criança.
Jamal vive uma vida simples, é honesto e íntegro numa Índia violenta e infernal, onde os maus-tratos a menores são o prato do dia de bandidos sem escrúpulos que dominam a cidade (qualquer semelhança com outras realidades de outros países... não é mera coincidência).
No entanto, Jamal não se interessa por dinheiro. Então, o que estará a fazer no programa? E como consegue acertar tudo, se não tem estudos? Será o destino?
Achei incrivelmente fantástico este enredo, que demonstra como o ser humano consegue captar (e perceber) o mundo à sua volta, a maneira como pode aprender (e como pode sofrer para o fazer) e, finalmente, para que serve esta aprendizagem (que não depende, necessariamente, da escola formal, mas da escola da vida). Eu recomendo!

sábado, 14 de fevereiro de 2009

A Troca

No último fim-de-semana fui a Lisboa e aproveitei para ir ao cinema com o meu filhote. Fomos ver um filme que ainda não havia chegado a Viseu: A Troca, realizado por Clint Eastwood, e com Angelina Jolie como actriz principal. Narra a história verídica de uma mãe que se despede do filho antes de ir para o trabalho e, na volta, descobre que a criança desapareceu. A mãe desesperada inicia, então, uma busca imparável, enfrentando polícias corruptos e um sistema que tenta, a todo o custo, calar a sua voz. Um filme íntegro, tecnicamente bem realizado, uma história chocante, mas, apesar das passagens fortes que em outra película poderiam causar lágrimas, nesta provoca pouca emoção. De qualquer forma, valeu o tempo gasto!

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

O adolescente míope

Adolescência... Quem não se lembra da sua? Confusão, descoberta, emoções, preocupações... Seja como for, cada um tem uma história, a sua história, um percurso interessante e, certamente, digno de ser narrado.
Hoje presenciei uma narrativa de alguns percursos adolescentes. Poderiam ser os percursos de qualquer um, mas era o do bailarino e coreógrafo romeno, Romulus Neagu, o do actor e encenador inglês, Graeme Pulleyn, e o do músico e compositor português, Luís Pedro Madeira. Com música interpretada ao vivo, o espectáculo "A partir do adolescente míope", que estreou no Teatro Viriato, em Viseu, constrói-se em volta da misteriosa relação entre o ser humano e o livro, o acto de escrever, o prazer de ler e a obrigação de estudar.
Trata-se de um olhar e de um reviver das adolescências dos artistas, com base no encontro entre a reflexão pessoal e a (re)descoberta da obra literária O Romance do Adolescente Míope, de Mircea Eliade, um jovem autor que escreveu o seu primeiro romance aos 17 anos.
Num cenário simples e solitário, o espectáculo concentra-se, sobretudo, na necessidade de cada um procurar a sua voz, descobrir o que precisa de dizer e como consegue dizer (através dos livros, da dança, do teatro, da música, da ciência, do desporto etc.). E esse "grupo" soube dizer muito bem. Eles cantam, dançam, correm, discutem, leem... mas principalmente, transmitem as suas histórias de uma forma muito particular.
Deixo aqui o meu agradecimento ao Romulus, que teve a gentileza de me convidar para o ver mais uma vez em palco. Amei!!!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Pomba-Gira

No início do mês postei o meu desacordo com o Acordo Ortográfico, e falei das expressões regionais que nunca poderão ser iguais, visto fazerem parte da identidade de cada povo. Expliquei que é isso que faz a diferença entre o português falado no Brasil e o português de Portugal, e não uma meia dúzia de palavras escritas de forma diferente.
Sábado passado estive a apresentar uma comunicação no Congresso Luso-Brasileiro de Psicologia da Saúde, em Faro, no Algarve, e vi uma cena caricata e engraçada que não podia deixar de relatar aqui, visto ilustrar perfeitamente o que eu disse anteriormente.
Estava um grupo de meninas pertencentes à organização do congresso (aquelas pessoas que apoiam o funcionamento de cada mesa, ligam os computadores, verificam se está tudo a correr bem) sentado num dos corredores de acesso às salas, quando o coordenador de uma das mesas aproximou-se delas.
Era um senhor brasileiro com os seus 50 e tal anos, bastante simpático, que foi prontamente aclamado por todas as meninas com muito entusiasmo (uma delas até, em tom de acolhimento, cantou: “olha que coisa mais linda, mais cheia de graça...”). Ele, não querendo ficar para trás nos elogios, retrucou: “Aqui estão as minhas belas periquitinhas!”
Elas estavam visivelmente divertidas com a conversa e, para ajudar à festa, começaram a dizer que eram umas pombinhas. Visto o assunto caminhar para o quesito “beleza”, completaram: “somos umas pombinhas giras” (para quem não está familiarizado com a palavra, gira, em Portugal, significa bonita). O brasileiro sai-se, então, com a seguinte frase: “Pombas-Giras, não! Deus me livre!” – e afastou-se lentamente do grupo.
É que Pomba-Gira, no Brasil, é um Exu-Fémea (espírito que se incorpora nos médiuns, uma entidade que trabalha na Umbanda). A Umbanda é uma crença formada dentro da cultura religiosa brasileira, que reúne vários elementos, inclusive de outras religiões como o catolicismo, o espiritismo e religiões afro-brasileiras.
Para o grupo todo, ficou um mal-entendido ou um não-entendido, que levaria algum tempo para ser explicado. Elas ficaram sem perceber o “Deus me livre” do senhor... e ele, certamente, não entendeu o “Pombas-Giras” proferido pelas raparigas.
Para mim, que assistia a cena de fora, foi uma situação interessantíssima. Simplesmente demais!
Acham que dá para uniformizar isso? Impossível! E viva a diferença!

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Meu vício, o Café

Noutro dia, num jogo quebra-gelo feito num workshop em que participei, pediram-nos que nos apresentássemos, dizendo o nome, a profissão, o signo e um vício. Assim, de repente, pensar (e confessar) um vício, não é fácil, e acabei por dizer “café”, mas pensando bem, posso dizer que é mesmo. Constantemente perco a conta do número de cafés diários que bebo, e o efeito sentido resume-se a um só: prazer!
No Brasil, eu costumava beber café de saco (aquele coado). A quantidade também era grande, mas há uma diferença entre lá e cá. Em Portugal, quando se pede um café, servem-nos sempre o café expresso (ou bica, como também é conhecido), bem mais forte e encorpado.
Assim, e desde que saí do “meu país”, adquiri o hábito do expresso de manhã, a seguir ao almoço, a seguir ao jantar, a meio da tarde, ao fim da tarde (etc., etc.), ainda em Moçambique, naqueles vários cafés espalhados pela Av. 24 de Julho, onde eu me obrigava a parar sempre que podia.
É engraçada essa coisa do hábito. Uma vez adquirido, sentimos falta quando não encontramos do mesmo.
Agora já não aprecio, infelizmente, o café servido no Brasil (excepto o que bebo em casa da minha mãe, claro!). Em Espanha, se se quer beber um bom expresso... bem, ainda não encontrei um bom expresso em Espanha porque, invariavelmente, o que nos servem por lá é uma “banheira” de água com um pó preto. Em França, dentro do meu francês inexistente, aprendi a pedir um expresso “très serré” para ter qualquer coisa parecida com a bica portuguesa, do contrário, também receberia uma banheira (caríssima, por sinal) de água e pó preto.
Por falar em bica, esse termo é a inicial da expressão "Beber Isto Com Açúcar", tendo surgido em Lisboa, quando o café expresso começou a ser comercializado, num café localizado no Chiado, denominado "A Brasileira". Ocorreu que o sabor do café era pouco agradável ao paladar, uma vez que os lisboetas não misturavam açúcar ao preparado, pelo que foi criado o slogan Beber Isto Com Açúcar, para os esclarecer. O termo teve tanto sucesso, que acabou por ficar até aos nossos dias.
Por outro lado, no Porto, o costume é pedir um cimbalino, como referência a La Cimbali, uma popular marca de máquinas de fazer café expresso.
Expresso, Bica, Cimbalino, ou somente Café (seja como for), assumo publicamente: é um "vício" bem bom!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Saudades de Moçambique

Falar do Mia Couto fez-me lembrar dos belos (embora poucos) anos que passei em África. Foram poucos, mas bons, como se costuma dizer.
Por incrível que pareça, não fui para lá com grandes expectativas. Achava mesmo que não ia gostar nada daquilo (afinal, o Oceano Índico não tem a cor do Atlântico) mas, felizmente, tudo correu diferente do que eu supunha e... amei!
De facto, África será sempre África! E o que quer isso dizer? Quer dizer que aquela terra será sempre boa, será sempre bela, será sempre acolhedora. E como me acolheu bem!
Aquele povo é simples, humilde, feliz... de tal forma, que às vezes indagamos: “como podem ser felizes com tanta pobreza, com tanta miséria?”. E a resposta está bem à vista e é tão óbvia (principalmente para alguém que veio do Brasil) que até nos envergonhamos da pergunta: é simplesmente porque o verdadeiro tesouro, a verdadeira riqueza, não está nos valores materiais e nos bens que um povo possui... está nas lições que ele sabe ensinar. E a África “sabe” disso...

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Mia Couto

Tal como prometido no post anterior, hoje vou falar do Mia.
António Emílio Leite Couto, um dos escritores moçambicanos mais conhecidos no estrangeiro, nasceu na Beira, em 1955. Ganhou o nome Mia do irmão mais novo, que não conseguia dizer Emílio. “Reza a lenda” que o escritor adoptou esta alcunha também devido a sua paixão pelos gatos desde pequeno, tendo inclusive dito à sua família que gostaria de ser um deles (verdade ou não, quem gosta de gatos, tem a minha admiração!).
Segundo a sua biografia, Mia teria dito certa vez que não tinha uma “terra-mãe”, mas sim uma “água-mãe”. Referia-se à tendência para a sua terra natal, situada à beira do Oceano Índico, ficar inundada durante a época das chuvas.
Mia Couto iniciou o curso de Medicina ao mesmo tempo que começava a fazer jornalismo, tendo abandonado aquele curso para se dedicar à profissão. Foi director da Agência de Informação de Moçambique e, mais tarde, tirou o curso de Biologia.
Vencedor de vários prémios, tem a sua obra traduzida em alemão, espanhol, francês, inglês, italiano, neerlandês, norueguês e sueco.
Pessoalmente, a sua simpatia, humildade e simplicidade não deixam as pessoas indiferentes.
No dia 7 de Março de 2005, fez uma oração de sapiência, na abertura do ano lectivo do Instituto Superior de Ciências e Tecnologia de Moçambique. Do texto, destaca-se a mensagem “Os Sete Sapatos Sujos”, que transcrevo pela beleza da lição:
“Não podemos entrar na modernidade com o actual fardo de preconceitos. À porta da modernidade precisamos de nos descalçar. Eu contei ‘Sete Sapatos Sujos’ que necessitamos de deixar na soleira da porta dos tempos novos. Haverá muitos. Mas eu tinha que escolher, e sete é um número mágico:
Primeiro – A ideia de que os culpados são sempre os outros e nós somos sempre vítimas;
Segundo – A ideia de que o sucesso não nasce do trabalho;
Terceiro – O preconceito de que quem critica é um inimigo;
Quarto – A ideia de que mudar as palavras muda a realidade;
Quinto – A vergonha de ser pobre e o culto das aparências;
Sexto – A passividade perante a injustiça;
Sétimo – A ideia de que, para sermos modernos, temos que imitar os outros.”

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O outro pé da sereia

Como gosto de partilhar o que faço e o que me encanta com os amigos, volto a falar de literatura. Estou a acabar de ler mais uma obra de Mia Couto (noutro dia falo melhor sobre ele aqui): O outro pé da sereia.
Este romance narra várias viagens, entre elas a de um missionário português que pretende converter o continente africano, a de uma jovem que quer regressar à infância e a de um casal de afro-americanos que busca um lugar encantado. Numa mistura entre presente e passado, mais uma vez o meu escritor africano favorito prende a atenção do leitor com uma história encantadora, cheia de sonhos e de realidades, repleta de lições (históricas, sócio-políticas, de vida).
Deixo dois trechos interessantes (para aguçar a vossa vontade de ler):
“A melhor maneira de fugir é ficar parado. Lição que o burriqueiro Zero Madzero aprendera com a imbabala, a gazela dos matos densos. É a fuga da presa que engrandece o caçador. O ficar imóvel é o mais astuto modo de enfrentar o predador: deixar de ter dimensão, converter-se em areia no deserto. Desaparecer para fazer o outro extinguir-se.
A melhor maneira de mentir é ficar calado. Lição que o burriqueiro não aprendera com ninguém. O silêncio não é ausência de fala, é o dizer-se tudo sem nenhuma palavra.” (p. 20)
“Os outros passam a escrita a limpo. Eu passo a escrita a sujo. Como os rios que se lavam em encardidas águas. Os outros têm caligrafia, eu tenho sotaque. O sotaque da terra.” (Epígrafe do capítulo XVI, p.271)

domingo, 1 de fevereiro de 2009

(Des)acordo!

Fala-se muito (mais ainda desde o ano passado) sobre a Nova (Velha) Reforma Ortográfica, mas ainda não percebi as vantagens disso. Aliás, acho que ninguém percebeu. Talvez porque ninguém até agora tenha dado uma explicação plausível para se gastar tempo com uma coisa que não está estragada e que, portanto, não necessita de reforma alguma. Mas tudo bem... Parece que no Brasil a coisa vai pegar mais rápido que cá, mas tudo indica que, no final, Portugal também vai aderir ao Acordo.
Ponham-se na minha situação! Vim para fora do Brasil há mais de dez anos, vivendo sempre em países que falam o português e, durante esse tempo, tive que mudar a grafia que utilizava (ato, fato, contato, adotar, ótimo, idéia, correto, objeção, direção, objetivo, afeto, entre outras palavras), passando a escrever de outra forma (acto, facto, contacto, adoptar, óptimo, ideia, correcto, objecção, direcção, objectivo, afecto). Não foi fácil adaptar, além de ter sido um processo moroso. Agora, sem mais nem menos, querem que eu volte a escrever como dantes? Ora essa... era o que faltava!
Falando mais a sério (e dificuldades particulares à parte), na minha opinião, o Acordo é totalmente inútil! Trará custos que acabarão por ser bem superiores aos benefícios (se é que os há). Gramáticas novas, dicionários novos, livros novos... e para quê?
Aparentemente, tudo foi elaborado em nome de uma suposta unificação. Unificação esta, completamente desnecessária, já que a essência da língua está (e continuará a estar) toda lá, quer se adopte (ou quer se adote) ou não, uma nova grafia. Não há alterações nisso, na essência. E, no fundo, é isso que interessa.
Ler um texto escrito em português do Brasil ou em português de Portugal será sempre igual, visto que os regionalismos continuarão a existir, a utilização do gerúndio será sempre maior lá que cá, a concordância e a aplicação do pronome continuarão diferentes.
O mercado editorial de ambos os países nunca esteve em baixo por causa dessas pequenas diferenças, pois um livro publicado em Portugal sempre pôde ser vendido no Brasil (o meu o é, por exemplo), e vice-versa.
As diferenças que, eventualmente, poderão causar alguma dificuldade na interpretação, são as de ordem vocabular, nunca de grafia. Muitas palavras que no Brasil e em Portugal têm significados diferentes, permanecerão no vocabulário de cada país depois de entrar em vigor o Acordo (por exemplo: rotatória e rotunda; celular e telemóvel; presunto e fiambre; terno e fato; água sanitária e lixívia; pedestre e peão; aposentado e reformado; camisola e camisa de noite; calcinha e cueca; e várias outras). Então para que complicar?!
Por mais que eu procure, não encontro mesmo qualquer justificação para essas mudanças de grafia. Em nome de uma unificação, o que se vai fazer é criar instabilidade, sem se conseguir unificar nada. Defende-se que “apenas” 0,43% do vocabulário brasileiro, e 1,42% do português, serão afectados. A meu ver, não se trata de quantidade, mas de qualidade. O que interessa é que essa inconsequência (ou inconseqüência) vai causar mais confusão do que se imagina (na minha humilde opinião, claro!).

sábado, 31 de janeiro de 2009

Me gusta

Na última quarta-feira, fui ao teatro! A acompanhar-me, foram o Khalid e a Margarida (e lá no bar do teatro ainda encontramos a Cristina).
Me gusta, da companhia belga Laika, o espectáculo escolhido para aquela noite, estava em cartaz no Teatro Viriato, em Viseu. Foi uma interessante aventura cultural (e culinária), repleta de surpresas, e com um repertório musical a condizer.
Para o compor, foram realizadas entrevistas, que recolheram ideias sobre as diferentes práticas culinárias, os diferentes costumes, os diferentes rituais, as diferentes tradições, que fazem do acto de comer um acto social, importante em qualquer cultura.
Assim, foi abordado, num cenário oval com a plateia sentada no palco, vários aspectos da gastronomia de povos de diversas partes do mundo, oscilando entre o rigor e a exuberância, o formal e o exótico (uma cerimónia de chá japonesa, um banquete canibalesco, a comida rápida e plastificada servida nos aviões, o amassar do pão, a pasta italiana, o uso do sal e do açúcar), tudo precedido de um ritual de lavagem de mãos efectuado pelos artistas a cada pessoa da plateia.
O enredo, repleto de instruções sobre o bem comer, o bem provar e o bem saborear, conta com a participação de três actores, uma bailarina e dois cozinheiros, e está adaptado a cada língua dos diferentes países onde a companhia se apresenta.
Durante a encenação, é servido um jantar completo composto por uma sopa, um prato de massa e a sobremesa, aos quais também se junta o vinho.
Devo dizer, no entanto, que o final ficou a saber a pouco. Não sei... esperava qualquer coisa a mais para fechar com chave de oiro! De qualquer maneira, foi uma forma divertida e interessante de passar a noite. Jantar e ir ao teatro ao mesmo tempo pela módica quantia de 15,00€, não é coisa que se faça todos as noites.
E porque a mim "me gustó", digo a vocês que vale a pena experimentar!

domingo, 25 de janeiro de 2009

Agora são os filmes

Actualmente, não sei porquê, entrei numa de fazer balanços... Não tentem interpretar isso, pois a psicóloga aqui sou eu, e digo que não há nada para interpretar.
Verdade! A explicação até é simples. Tudo começou com a tal crise económica... Comecei por apontar as despesas grandes, passei às pequenas contas e, quando dei por mim, já estava a contabilizar lugares, espectáculos, musicais, enfim. Também parece ser uma forma diferente de passar o tempo (tal como escrever num blogue).
Bem, agora virei-me para o cinema. Não sou cinéfila, mas gosto de um bom filme, e aprecio a distracção e a riqueza (cultural, moral, espiritual etc.) que um bom enredo pode trazer. De há uns tempos para cá, mudei o género diversas vezes. Gostava de dramas, de filmes românticos; depois passei aos filmes de aventura; a seguir vieram as comédias; e por fim, nesse preciso momento da minha vida, gosto de filmes bons, que me atraiam na leitura da sinopse.
Já que a ideia é fazer balanço, não vou maçar-vos com os filmes do ano passado, mas vou falar dos dois que vi em 2009, que estão fresquinhos, fresquinhos na memória (e que recomendo).
O primeiro, assisti em vídeo, porque é uma produção que estreou nos cinemas em 2005. Chama-se Colisão, e lança um olhar directo e provocador sobre as complexidades da (in)tolerância racial na América actual. A maioria das personagens retratadas no filme são, de alguma maneira, prejudicadas pela sua etnia ou nível social, e acabam envolvidas em conflitos que as forçam a examinarem os seus próprios preconceitos. O filme não deixa as pessoas indiferentes diante da sua imprevisibilidade e ausência de julgamentos, ainda que não totalmente isento de uma moral subjacente a qualquer história cinematográfica, e que é traduzida (também) na frase de uma das personagens: "Pensas que sabes quem és? Não fazes a mínima ideia!".
No filme, cerca de vinte personagens interpretadas por um excelente elenco (uma dona de casa e o seu marido, advogado estatal; um persa, dono de uma loja, a sua mulher e a sua filha, que é médica; dois polícias detectives, que são também amantes, a mãe dele; um director de televisão afro-americano e a sua mulher; um mexicano serralheiro, com mulher e uma filha pequena; dois ladrões de automóveis, um polícia recruta e outro veterano, cujo pai está doente; uma funcionária da Segurança Social; um casal coreano de meia-idade), vivem em Los Angeles e, durante 36 horas, entram em colisão. Colisão no sentido do toque, já que nesta cidade, sente-se a falta do toque, do conhecimento, do contacto com os outros. Como eu disse: vale a pena ver!
O outro filme, vi no cinema na semana passada. Chama-se O Estranho Caso de Benjamin Button, e fala sobre a impossibilidade de parar o tempo, sobre os encontros e desencontros da vida, sobre aproveitar os momentos, sobre o início e o fim. Começa com “Eu nasci sob circunstâncias pouco usuais", e conta a impossível história de um homem que nasce com oitenta anos e regride na sua idade. O filme foca questões sociais, de forma crítica e, de alguma maneira, ajuda-nos a acordar para a vida, ensinando que é uma grande tolice perdemos tempo a pensar no tempo que passa, sem nos lembrarmos de viver o tempo presente. Interessante!

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Mais Balanço Cultural

Já que entrei nessa de balanço cultural, continuei a remexer nas minhas memórias e verifiquei que ando em falta com algumas das boas coisas da vida... como um belo espectáculo musical, por exemplo, ou uma boa peça de teatro.
Mais uma vez, correndo o risco de desiludir a minha "legião de fãs", confesso aqui os meus pecados, e faço votos (para mim própria) de um 2009 mais movimentado nessa área também.
Deveras, a última vez que assisti um espectáculo musical foi quando vi a Marisa Monte no Coliseu de Lisboa, em Setembro de 2006, no seu Universo Particular. Pois é, foi um dos concertos mais bonitos que já tive o prazer de presenciar, e que partilhei com o meu amigo João Alexandre (a quem volto a agradecer – desta vez em público – pela agradável companhia). Marisa Monte apresentou-se num cenário interessante e simples, com recurso a imagens projectadas, luzes e uma composição do palco em degraus que vão e vêm. Este espectáculo foi composto maioritariamente por faixas dos seus dois últimos álbuns, mas não deixou de ter presente músicas gravadas pelos Tribalistas e canções de álbuns mais antigos como a Segue o Seco. A Dança da Solidão e a encenação de Meu Canário, com um canário virtual (ou politicamente correcto, como Marisa o chamou) prenderam, particularmene, a minha atenção.
Quanto ao teatro, aqui também o (meu) verbo está escrito no passado. Uma das últimas peças que vi foi encenada no Teatro FAAP, em São Paulo, em Novembro de 2007, quando aproveitei a minha curta estadia de uma semana para ver Ensina-me a Viver, com Glória Menezes, João Falcão, Ilana Kaplan e Fernanda de Freitas (creio que estou a esquecer de algum nome). Na narrativa, Harold (João Falcão) é um jovem de vinte anos que vive como um idoso, obcecado pela morte, e Maude (Glória Menezes) é uma senhora de quase oitenta anos completamente apaixonada pela vida. A partir do encontro destas duas pessoas tão diferentes, uma trama se desenrola com uma tocante e bem-humorada história de descobertas entre ambos, repleta de mensagens positivas do tipo “o amor é o melhor remédio”, onde o velho rapaz aprende com a jovem senhora sobre o prazer de viver.
Depois disso, e de regresso a Portugal, voltei várias vezes ao teatro (primeiro, no Carlos Alberto, no Porto e depois no Teatro Viriato, em Viseu) ao longo do mês de Fevereiro de 2008 (sozinha e também com diferentes acompanhantes), para ver um único espectáculo: A Invisibilidade das Pequenas Percepções, onde o coreógrafo Romulus Neagu realiza o encontro entre uma pessoa com deficiência, José António Correia, e outra proveniente de um Lar de Infância e Juventude (a Instituição onde, por acaso, sou Directora Técnica), Ana Isabel Gomes (uma menina especial e talentosa). Uma obra de dança contemporânea, onde os três contam as suas histórias através de movimentos corporais que, num crescendo de emoções, não deixam o público indiferente. A completar e acompanhar a composição, a presença do músico Ulrich Mitzlaff, proporciona momentos sonoros únicos.
Por último, em Março de 2008, fui com a minha colega e amiga Anabela ao Teatro Viriato novamente, dessa vez para assistir ao espectáculo Maldoror, dos Mãos Morta, composto a partir de “Os Cantos de Maldoror”, a obra-prima literária de Isidore Ducasse (pseudónimo de Conde de Lautréamont). Um espectáculo único, perturbador, que faz uma crítica provocadora a alguns aspectos da nossa realidade, e onde a música brinca com o teatro, o vídeo e a declamação. A caracterização dos personagens contrastavam com os vídeos, de uma simplicidade infantil, que eram interrompidos quando o narrador utilizava uma mini-câmera para realçar alguns pormenores da peça. Diferente e interessante!