terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Ano Novo, Vida Nova!

Com ou sem crise, como em todos os Dezembros, a expectativa é de que o novo ano seja melhor. Sempre foi assim, porque o ser humano (graças a Deus!) tem uma incrível capacidade de sonhar (o poeta já dizia: “o sonho comanda a vida…”, não é?). E é nesse sentido que o ano de 2009 vai andar...
Poderia aqui citar as coisas boas ocorridas em 2008 (porque houveram), mas o que interessa é o que pode ficar melhor, ou o que pode ser “concertado”. Sim, porque correndo o risco de parecer utópica, acredito que tudo tem concerto (até as pessoas). Penso, tal como o poeta, que é preciso viver o sonho e a certeza de que tudo o que está mal vai mudar, vai avançar, vai melhorar, pois a vida está nos olhos de quem sabe ver, e nas mãos de quem sabe fazer acontecer.
Mas o que tivemos em 2008, então? Reformas políticas, reformas na lei, crise económica, aumento da criminalidade, secas, inundações, doenças, desemprego, exclusão social, abandono e maus-tratos a menores, violência doméstica…
E o que poderá ser diferente em 2009? Acredito que tudo! Sim, tudo mesmo. Porque a mudança dependerá de cada ser humano que tem capacidade para apontar o que está mal, farta-se de reclamar e, muitas vezes, permanece parado, inerte, a ver o que é que “aquela gente que está lá em cima vai fazer pelo povo”.
É certo que sem igualdade social o crescimento económico deixa de ser sustentável. Se os cidadãos não tiverem oportunidades disponíveis, os mercados trabalharão unicamente para uma minoria rica. Isto significa que é necessário proporcionar a todos acesso à educação, à saúde e a um trabalho digno.
Actualmente, e cada vez mais, as pessoas concordam que a pobreza num lugar qualquer é pobreza em todas as partes. Necessitamos de um sistema baseado nos direitos humanos, na igualdade e na justiça social. Para isso, o papel das associações da sociedade civil, dos profissionais de todas as áreas, da população em geral, é muito importante. O futuro está nas nossas mãos, não nos devemos posicionar como espectadores!
Anualmente a União Europeia escolhe um tema com o objectivo de sensibilizar o cidadão e chamar a atenção dos governos nacionais para as questões com ele relacionadas. Por mais abrangentes que sejam os temas eleitos, eles são o reflexo das preocupações das organizações europeias e dos Estados-Membros. Em 2009 (a partir de 7 de Janeiro), teremos o Ano Europeu para a Criatividade e a Inovação, através da Educação e da Cultura.
A UE defende que uma abordagem criativa é a chave do sucesso numa economia global. A inovação é uma parte essencial tanto do pacote de medidas da Comissão como do seu plano de relançamento da economia europeia. Assim, a Europa é “chamada” a desenvolver o seu potencial criativo. Em particular, os cidadãos europeus se devem mostrar abertos à mudança, estarem receptivos a estratégias inovadoras e, principalmente, serem actores dessa mudança.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Um Gesto Natural

Pergunto-me com frequência, porque será que na altura do Natal as pessoas ficam, de repente, tão caridosas, tão solidárias.
Sim, é verdade! A generalidade das pessoas não se lembra que existem crianças, jovens e adultos, deficientes, doentes ou a sofrer de outro mal ao longo do ano. Parece que Dezembro é o mês do sofrimento. E é o mês de mostrar que fazem qualquer coisa pelo próximo, quando mais não seja juntar os velhos brinquedos (alguns até partidos e, consequentemente, sem qualquer utilidade) que os filhos já não querem mais, para dar a crianças carentes, quase como a dizer que, por serem necessitadas, não merecem coisas inteiras.
Aqui impõem-se outras questões: Porque as pessoas confundem estes gestos com caridade e amor ao próximo? Porque as pessoas pensam que, ao chegar a noite de Natal, podem ir a um orfanato ou a um lar onde haja uma criança afastada da família por alguma razão, e levar essa criança para a casa, assim, sem mais nem menos, sem qualquer vínculo estabelecido, sem qualquer laço de afecto, e acham que estão a fazer um bem? Porque as pessoas não fazem pequenos gestos o ano inteiro, não criam laços e compromissos para que, na altura do Natal, o acto de dar possa ser visto e sentido como mais natural?
Matilde Rosa Araújo, escritora e professora, nascida em Lisboa em 1921, cuja voz tive a felicidade de ouvir recentemente numa tertúlia organizada pelo Solar do Vinho do Dão, em Viseu, oferece-nos algumas lições nos seus escritos e, a propósito daquilo a que chamamos caridade, no final do seu conto “A fita vermelha”, ela deixa um conselho: “... não adiem os vossos gestos. Procurar alguém que sofra, que precise de nós, nem sequer é um gesto generoso, deve ser um gesto natural, que se não adia.”

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Provar o Batom...

Acho que há uma grande diferença entre um piropo e um galanteio.
Oiço piropos desde a adolescência (e detesto!). Quanto aos que fazem bons galanteios… simples ou elaborados, directos ou subtis… Uau! Ganham a minha admiração!
Em Portugal (felizmente), até onde tenho tido oportunidade de reparar, o uso dos piropos não é tão frequente como no Brasil (talvez porque eu cá não ande tantas vezes a pé como lá… mas enfim!).
Lembro-me que lá pelos meus 16/17 anos, estava a falar com um rapaz visivelmente interessado na minha pessoa, a quem eu tinha sido apresentada há uns dias por amigos comuns. Já nos tínhamos encontrado algumas vezes em diferentes situações. Ele não era de se deitar fora, e a conversa até estava interessante. Lá pelo meio da prosa, depois de elogiar a minha boca (num galanteio fraquinho, mas admissível no contexto), saiu-se com essa:
– Deixa-me provar o teu batom?
Eu, que sempre fui muito directa, rapidamente abri a carteira, tirei de lá um batom e entreguei-o ao pobre rapaz, que ficou visivelmente atrapalhado com a minha piadinha. Tadinho dele!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

O Homem dos Sonhos

Moreno, alto, bonito, sensual, olhos verdes, elegante (leia-se: em forma), inteligente, atencioso, forte para proteger, mas ao mesmo tempo meigo e carinhoso, preocupado em fazer feliz a mulher amada... um príncipe!
Mais cedo ou mais tarde, "ele chegará montado num cavalo branco"! E então se vai viver o verdadeiro sonho... "um amor e uma cabana".
A medida que os anos passam, o relógio biológico toca, o pragmatismo vence. Os rígidos critérios de selecção sofrem uma “pequena” reforma:
Já não é preciso ser príncipe, basta ser educado... não é preciso cavalo, porque um carro razoável serve... não tem que ser moreno e de olhos verdes, a altura não é importante e a barriguinha até tem charme... a cabana, só de férias (e assim mesmo com ar condicionado ou aquecimento central, conforme o caso). Pode não ser o príncipe encantado... mas é tão parecido!
Assim, "não é moreno, é loiro... não é alto, é baixo... não é elegante, é gordo... não é o homem dos sonhos, mas serve...". E então vivem felizes para sempre...

domingo, 14 de dezembro de 2008

O Carteiro

"Quando o carteiro chegou e o meu nome gritou com a carta na mão (…) nem sei como pude chegar ao portão…"
A emoção reflectida nesta letra de Cícero Nunes e Aldo Cabral é a mesma que eu sentia, quando era adolescente, cada vez que ia à caixa de correio e via que tinha uma carta para mim.
O advento da internet veio mudar essa sensação, já que hoje uma carta (ou, nesse caso, um e-mail) pode levar menos de um minuto a chegar ao seu destino. Vejam bem, não tenho nada contra a internet (não teria eu um blogue), mas sinto uma grande nostalgia quando lembro daquela época.
Antes mesmo da existência da internet, eu já tinha amigas virtuais. Sim, daquelas que eu só conhecia por carta. Encontrava-as nos jornaizinhos dos grupos de bandeirantes e escoteiros que eu participava ou nas revistas de banda desenhada, que destinavam um espaço para quem quisesse fazer amigos à distância. E costumava “falar” com as minhas amigas virtuais através das cartas como se as conhecesse pessoalmente.
Eu tinha um bloco de cartas, aliás, mais do que um… alguns tinham folhas com desenhos e frases de rodapé… outras eram perfumadas, para as missivas mais delicadas.
Escrevia à mão, claro, já que as mensagens escritas à máquina eram tidas como muito impessoais. No início, dada a falta de experiência, costumava fazer um rascunho da carta, para depois passar para o papel definitivo, sem rasuras. Com o tempo, passei a escrever directamente no papel de carta (já sem qualquer erro). Raramente mandava uma folha só… muitas vezes parecia um livro, tantas eram as páginas escritas, tantas eram as novidades a relatar!
Subscritava carinhosamente o envelope (que podia ter várias cores, tamanhos e formatos), levava-o ao correio mais próximo, onde comprava um selo (muitas vezes mais que um, dado o peso do pacote), e depositava-o na caixa. Depois, esperava, esperava, esperava pela resposta… e, quando ela chegava, abria o envelope com muito cuidado, e lia as novidades avidamente.
Porque tanto trabalho para abrir um simples envelope? Porque eu sabia que lá bem distante, noutra cidade ou noutro país, alguém o havia subscritado com carinho, tal como eu fazia. Alguns até tinham o perfume das mãos de quem o tinha tocado... Pois é, a carta continha, para além da emoção das novidades, um cheiro, uma textura, uma forma...
O carteiro, naquela altura, fazia parte do meu dia-a-dia, do meu imaginário, dos meus sonhos... Mas hoje, infelizmente, sinto que aquela figura mística do "carteiro que surpreende" está em extinção.
Hoje, o carteiro é mensageiro, na maior parte das vezes, de correspondências que saem da caixa de correio directamente para o lixo. Já não trás novidades, não trás emoção. Já ninguém o espera passar, ninguém pergunta por ele...
Agora, na maioria das vezes, ele caminha quilómetros de distância para fazer entregas que já não comovem…

sábado, 13 de dezembro de 2008

Debaixo da Cama

O imaginário infantil é mesmo espectacular!
Quando eu era criança, o nome Waldir, não sei porque, me assustava. Lá em casa ninguém conseguia entender quando eu corria para debaixo da cama sempre que ouvia dizer que o tio Waldir havia chegado.
Na época eu contava cerca de três aninhos. Vivíamos num grande apartamento em Passo Fundo, Rio Grande do Sul, terra de nascimento da minha mãe. A sua família, quase toda de lá, visitava-nos com frequência.
Lembro-me particularmente dos dois tios da minha mãe (meus tios-avós, portanto) que se chamavam Waldir e Walmor. Não me recordo bem da fisionomia deles, só sei que eram pessoas “normais”, nada assustadoras.
Mas algo me assustava no tio Waldir!
Ele chegava à nossa casa e, mal eu ouvia dizerem que era ele o visitante, corria para o quarto e enfiava-me debaixo da cama. Não havia quem me tirasse de lá! Enquanto a visita durasse, o meu porto seguro era ali. Outras crianças achavam que havia monstros debaixo da cama, eu achava que aquele era um lugar livre de perigos.
Certo dia, a minha tia Bel resolveu mudar as regras do jogo. A campainha tocou, ela abriu a porta e recebeu o visitante com um grande sorriso:
– Sr. José! Como está? Entre, Sr. José, seja bem-vindo!
Eu não era um bicho-do-mato e, para mostrar que era sociável, lá fui eu, muito timidamente, para perto da tia Bel, cumprimentar o “Sr. José”. Ele trouxera uma lembrancinha para mim (uma caneta toda enfeitada), tão querido que era! Fui para o seu colo, toda contente com o presente, e lá fiquei por um bom tempo.
Só mais tarde é que me contaram que, afinal, o “Sr. José” era o tio Waldir.

sábado, 6 de dezembro de 2008

A Parede é Verde!!!

É incrível como a pessoa que está num país que não é o seu de origem, ouve sempre questões do género: "Gostas de cá?"; "Onde preferes viver: cá ou na tua terra?"; "Sentes saudades de lá?" Enfim, essa talvez seja uma maneira menos trabalhosa de iniciar uma conversa, um modo de saber se vamos falar bem ou mal do lugar onde vivemos, ou simples curiosidade, não sei... O facto é que me deparo frequentemente com essas perguntas. Não é que me incomodem muito, não. Apenas repito, invariavelmente, as mesmas respostas, e isso é que talvez já canse um bocadinho.
Bem, então lá vai outra vez, para quem ainda duvidava: Gosto muito de Portugal e da sua gente! Gosto muito de cá estar, de trabalhar cá, de viver cá, de conviver cá... Gosto! Acho que se não gostasse, já tinha ido embora há muito.
Saudades "de lá"? Claro! Mas quem não sente saudades de alguma coisa na vida? E qual é o mal em sentir saudades? Aliás, a saudade é um sentimento super-saudável! Sim, porque ninguém sente falta de coisas más, não é? Então, sentirmos saudades, é uma confirmação viva de que vivemos coisas boas!
Bem, mas já que estou nessa de esclarecer o que sinto por Portugal, repito que amo o seu povo! Quero dizer, eu gosto de gente de um modo geral (sou um animal muito, muito social... e, talvez por defeito profissional, gosto imenso de observar as pessoas), e em Portugal, de Norte a Sul (ou de Sul a Norte... dependendo de quem vem ou de quem vai...), o povo é interessante, a sua cultura é fascinante, o seu modo de estar é encantador!
Voltando ao meu querido Porto, do qual já falei aqui muito an passant, permitam-me recordar aquela mesma noite de Fevereiro, ainda na Livraria Lello...
Como eu disse, chovia muito. O acolhimento caloroso lá de dentro contrastava com o frio que fazia lá fora.
Era quase hora de fechar, já tínhamos feito as nossas compras, o estómago nos avisava que seria uma boa altura para jantarmos, e resolvemos pedir indicações ao vendedor sobre onde se podia comer bem.
Conversando com ele estava um cliente (pareciam conhecidos ou amigos de longa data) que, aquando da conversa sobre África e escritores africanos, também deu a sua opinião. Foi ele quem respondeu ao nosso pedido de informação. Disse-nos qualquer coisa como:
- Gosto muito do Cafeína, um restaurante que fica na Foz... sou cliente assíduo... sou gourmet e gosto de um prato bem confeccionado. Tenho a certeza de que vocês não se vão arrepender.
Ainda brincou:
- Ah, não se preocupem, não ganho nada em indicar a casa... sou só um cliente.
E completou:
- Não é obrigatório, mas é sempre bom fazer reserva... Se quiserem, eu tenho cá o telefone.
Nós agradecemos, e dissemos que queríamos, mas qual não foi a nossa surpresa, quando o vimos telefonar do seu próprio telemóvel, e fazer-nos a reserva!
É assim a gente do Porto (acho que do Norte em geral): solícita, simpática, bem intencionada. É também isso que eu gosto em Portugal.
Bem, mas lá fomos nós, seguindo as indicações do nosso novo amigo.
À chegada, deparámo-nos com uma casa restaurada do início do século passado, cujo espaço interior, divido em duas salas, apresentava uma decoração sóbria e elegante, com uma iluminação discreta. A cozinha é do tipo internacional, com raiz portuguesa e alguns traços de influência francesa. Resumindo: um encanto!
A dada altura da conversa, ao olhar em volta e observar o requinte da decoração, comentei que gostava da cor preta da parede. Vi vários olhos a virarem para mim, até que o Fernando perguntou, surpreso:
- Estás a falar a sério?
À minha confirmação, ele disse:
- Etã... a parede é verde!!!
E não é que era mesmo!? Podem comprovar abaixo... O meu engano deve-se ter devido aos óculos... Esperem! Mas eu não uso óculos...

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Vidas, Sonhos e Memórias

Era uma noite chuvosa de Fevereiro. Andávamos pelo Porto a procura de novidades e lembrámo-nos que, bem perto do Hotel (o Euro Star das Artes), havia a livraria Lello, situada numa belíssima casa inaugurada em 1906. Há muito falávamos em lá ir, não só pelos livros, mas pela beleza da construção, um edifício com fachada em estilo neogótico, onde se destaca no interior, a decoração em gesso pintado imitando madeira, a escada de cimento armado de acesso ao piso superior, e o grande vitral do teto, que ostenta o monograma e a divisa da livraria: Decus in Labore.
O ambiente entre os livros sempre foi para mim muito acolhedor, mas aquele era mesmo especial, principalmente pela simpatia com que fomos atendidos.
Claro que, entre outros autores, eu estava a procura de Mia Couto. E obviamente que o encontrei… Mas descobri também alguém que eu desconhecia. Um novo autor (pelo menos para mim) que – garantiu o vendedor – eu iria gostar muito, “uma vez que gostava do Mia”.
Foi nesse dia que fiquei a conhecer a obra de José Eduardo Agualusa, angolano nascido em 1960, que tem ganho muitos prémios de literatura.
Dele comprei um livro escrito em 2004, ganhador do Prémio Independente – Ficção Estrangeira: O vendedor de passados.
Como ainda tinha outros na fila, acabei de o ler recentemente. Para além de toda a trama, que dá muito o que pensar, há ali coisas interessantíssimas… e, lá pelo meio, encontrei um trecho que fala de vida, sonho e memória:
“A memória é uma paisagem contemplada de um comboio em movimento. (…) São coisas que correm diante dos nossos olhos, sabemos que são reais, mas estão longe, não as podemos tocar. Algumas estão já tão longe, e o comboio avança tão veloz, que não temos a certeza de que realmente aconteceram.”

domingo, 23 de novembro de 2008

Uma aventura na Floresta...

E por falar em recordações de infância, lembro-me de uma viagem para Boa Vista... tinha eu 13 anos.
Começou no Jaru, cidadezinha do interior de Rondônia, que era onde estávamos "hospedados" há algum tempo. Éramos um grande grupo de pessoas, e seguíamos em dois ou três carros igualmente grandes.
O carro onde viajávamos era um Dodge Magnum (nem sei se isso existe hoje em dia) e, como o seu design não era próprio para estradas acidentadas, quando chegamos a Porto Velho, o meu pai teve que o pôr em cima de um camião, por forma a atravessar o areial no qual se tinha transformado a estrada alternativa para Manaus (sim, porque a estrada principal estava cortada por força de obras, uma vez que, no asfalto, formaram-se devido às chuvas, verdadeiras crateras intransponíveis mesmo para o camião).
A segurança rodoviária era algo de que não se falava muito naquela altura, e lá fomos nós, dentro do carro, em cima do camião.
Bem... na verdade não fomos muito longe (nem chegamos a Humaitá, no Amazonas)... isso porque a estrada estava tão mal que nem o camião passava.
Assim, durante 29 dias, fizemos de um posto de beira de estrada a nossa morada. Era o posto Piquiá, onde não se viam muitas caras novas, excepto as nossas, as de alguns outros viajantes na mesma situação e as dos seus moradores. Foram umas interessantes férias (forçadas) que tiramos. Passamos a dormir em tendas, a comer peixes que nós próprios pescávamos, a passear bastante, a brincar (afinal, a minha irmã e eu éramos ainda crianças).
Quando chegou a notícia de que a estrada já dispunha de condições para passarmos, levantamos acampamento e lá fomos nós... Lembro-me que no primeiro dia conseguimos viajar 7 km. É verdade! Foram 7 "longos" km o dia todo... isso porque a estrada não tinha as condições que pensávamos e os homens tinham que parar poucos metros depois de arrancar com os carros para tapar os buracos com pás e mais pás de terra, de modo a que não se partissem as peças dos veículos ao atravessá-los.
Não me lembro quanto tempo levamos para chegar a Manaus, mas chegarmos lá foi um grande alívio, porque a estrada a partir dali não era tão má, e já podíamos tirar o carro de cima do camião (esqueci de mencionar que o carro havia entrado de marcha à ré no camião, o que nos obrigou a viajar de costas durante todo o percurso).
Bem, passamos uns dias em Manaus para descansar e compor algumas peças do carro que entretanto não estavam muito seguras, e seguimos viagem logo que pudemos.
De Manaus a Boa Vista, em Roraima, a viagem correu mais ou menos normal... mas houve um episódio digno de menção: tivémos problemas com o carro. Isso por si já era mau... mas o facto é que o problema se deu dentro da reserva indígena local (a estrada, se não me engano a BR 174, corta uma reserva, sendo que há - ou havia, naquela altura - um grande portão à entrada e outro à saída, que eram fechados durante a noite, período em que não era permitido o trânsito automóvel).
Todos os motoristas de camião que por nós passavam e paravam para ver se precisávamos de ajuda, avisavam para sairmos de lá (com visível expressão de preocupação), porque, segundo eles (que conheciam bem o território, já que faziam com frequência aquele caminho), os nativos tornavam-se violentos com o cair da noite. O certo é que sem carro não poderíamos sair, o concerto estava a levar mais tempo que o previsto... e a noite estava a cair. Em pouco tempo, os portões seriam fechados.
O meu pai teve a brilhante ideia de pedir guarida na sede da reserva, que não era muito longe dali.
Logo à entrada, notamos que eles tinham um rádio de pilhas ligado a tocar um forró (as "novas tecnologias" ao serviço da integração entre os povos), alguns estavam a dançar, e haviam umas mulheres vestidas apenas com a parte de baixo e com duas ou três crianças "penduradas" à cintura.
Por acaso até foram muito simpáticos, deram-nos uma tenda (acho que o nome é maloca) feita de palha para passarmos a noite (e pediram que pela manhã, logo que o carro estivesse pronto, nós partíssemos), deram-nos carne de caça para cozinharmos e mostraram-nos alguns dos seus "instrumentos".
Refiro-me a umas lanças que estavam encostadas a um canto da maloca, e que uma das meninas do nosso grupo (a Dora), a tentar meter conversa com uns jovens índios que, tal como nós, estavam curiosos com a novidade, decidiu perguntar acerca da sua função:
- Isso é uma arma interessante... Serve para matar os animais que vocês comem?
Resposta do nativo:
- Sim, mata os animais... e mata gente também!
Escusado será dizer que a Dora não perguntou mais nada... e nem o porco do mato oferecido por eles para o jantar ela quis provar... Eu cá não entendi! A carne estava tão boa...

sábado, 22 de novembro de 2008

Sorte? O que é a sorte?


Quando o meu filho era pequeno, o pai dele e eu revezávamo-nos à noite para lhe contar histórias. Lembro-me que certa vez, após a velha fábula da “Cigarra e da formiga”, o meu pequenino achou que eu era a melhor contadora de histórias de todos os tempos. A partir daí, a fábula tinha que ser contada todas as noites.
Já farta do mesmo roteiro, tentei encontrar alternativas melhores, e lembrei-me de lhe contar alguns episódios da minha infância, onde não pude deixar de incluir as histórias das minhas viagens. Na verdade, não eram simples viagens de férias, eram viagens de mudança… sim, porque por razões de trabalho do meu pai, frequentemente, às vezes mais do que uma vez por ano, mudávamos de cidade (e até de país). Foi assim desde sempre. Até a faculdade, não me recordo de passar mais do que três anos, três meses e três dias no mesmo lugar (foi o tempo que vivemos em Boa Vista, Roraima, no Norte do Brasil... coincidência ou não, um número engraçado para recordar).
Certa noite, ao fim de mais uma história de viagem/mudança, oiço do meu filho a seguinte pergunta inocente:
- Mãe, porque eu também não “sou assim”?
O que ele queria saber era o porquê de não andar sempre a viajar, tal como a mãe. De qualquer forma, embora tenha sido clara a pergunta e a intenção dele, dado o visível fascínio que sentia pelas histórias, aquele “porque eu também não sou assim” soou-me estranho, como que a insinuar que “ser assim” era algo que se pegasse, algo contagioso, algo mau. Saiu-me, imediatamente, a seguinte resposta, ao mesmo tempo em que lhe dava um beijo de boa noite e aconchegava-lhe o lençol:
- Tu não és “assim” porque tiveste sorte.
Tenho a certeza que ele não compreendeu o que eu quis dizer (nem eu mesma sei o que quis dizer). Mesmo assim, deitou-se e dormiu “como um anjinho”, tal como o fazia todas as noites. O certo é que passado pouco mais de um ano desse dia, estávamos a mudar para o Continente Africano, e isso foi um grande acontecimento na vida dele… diria até que foi uma grande sorte…

Lembranças da Infância

As lembranças da infância são como os sonhos… estão vivos e frescos na memória quando acordamos, mas com o avançar do dia tornam-se cada vez menos nítidos.
Se quisermos contar um sonho interessante ao fim de algumas horas de acordar, geralmente temos duas opções para as partes que não nos lembramos… ou dizemos que não sabemos o que aconteceu a seguir, ou preenchemos os espaços em branco com uma mistura de criatividade aliada ao que achamos que aconteceu. Ao fim de um tempo, já não sabemos o que é imaginação e o que é realidade. E se repetirmos a história mais que uma vez, acreditamos que foi mesmo assim que sonhamos.
Esse mistério encanta-me. A realidade misturada a algo que gostaríamos que tivesse acontecido e que, no fim, não sabemos se aconteceu mesmo ou não.
Assim são as recordações da nossa infância… histórias reais quanto baste, que fazem viajar quem as ouve ou, nesse caso, quem as lê. Verdadeiras ou não… isso tem alguma importância?