sábado, 28 de fevereiro de 2009

Visita poética

Noutro dia, recebi (ou melhor, o blogue recebeu) a visita de um poeta (José António Cavalcanti) lá do outro lado do oceano. Não o conheço, nem aos seus escritos, mas retribuí a visita (e a simpatia), e encontrei algumas coisas interessantes:

Porque te amo?
Não há respostas.
Meu amor é um míssil.
Secreta ogiva segreda
inaudíveis palavras de amor.
Infelizmente
você não acciona o controle remoto.
Disparo meu último foguete.
Acciono o pavio,
porém você não detona.
Então, amor, afundo
e não volto à tona.

Para Creuza
(...)
O poema pode não mudar o mundo,
mas ilumina o caminho do homem.

Nau sem rumo
Não preciso de cartas de navegação:
basta-me o sonho de travessias impossíveis.
(...)

Acho que vale a pena conferir:

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Rachel Getting Married

Pelos vistos estou numa fase “cinema”, porque o grande ecrã tem atraído bastante a minha atenção ultimamente.
Ontem à noite fui com o meu filhote ver O Casamento de Rachel. Ele não gostou, mas eu não sou da mesma opinião.
O Casamento de Rachel” é um drama dirigido por Jonathan Demme (de O Silêncio dos Inocentes), gravado com uma aparência de filme independente, como se o espectador lá estivesse de câmera na mão. A trilha sonora vem dos músicos que ensaiam para o casamento que dá nome ao filme.
O enredo mostra Kym (Anne Hathaway, que está simplesmente brilhante e verdadeira na sua actuação), uma jovem toxicodependente, que consegue uma dispensa do seu internamento clínico, para assistir ao casamento da irmã. À chegada, encontra uma recepção ríspida, carregada de fantasmas do passado.
Repleto de traumas e conflitos familiares, o filme mostra uma família que se ama e se odeia ao mesmo tempo, mas com capacidade para superar os seus problemas em benefício de todos.
Não se pode dizer que seja o filme do ano (certamente não é para todos os gostos), mas, não sendo original na trama, acaba por prender a atenção, ao mostrar a dificuldade de amar e de ser amado, de pedir desculpas e de perdoar, de conviver com fraquezas e frustrações e seguir em frente, apesar disso.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Quem quer ser bilionário?

Hoje fui sozinha ao cinema! Nunca tinha feito isso, mas todas as pessoas que eu conheço (e que me poderiam acompanhar) já tinham visto o filme que eu queria, então lá fui eu, após o trabalho. Para não variar, como a sessão era cedo (fui à das 17h10), a sala estava quase vazia (havia somente um casal além de mim). Comprei a minha pipoquinha e o meu Sumol de laranja (que eu não gosto, mas eles não vendem nada melhor), e me instalei numa cadeira qualquer (tinha muito por onde escolher).
Fui ver o “Quem quer ser bilionário?” (título português) ou "Slumdog Millionaire" (título original), de Danny Boyle.
O filme conta a história de Jamal Malik, um órfão de 18 anos dos subúrbios de Mumbai que, apenas a uma pergunta de ganhar os incríveis vinte milhões de rupias (cerca de 300 mil euros) da versão indiana do concurso “Quem quer ser milionário”, é denunciado à polícia pelo apresentador do programa, por suspeita de fraude. Na esquadra, Jamal conta à polícia a história da sua vida nas ruas, e as suas aventuras para reencontrar a rapariga que ama desde criança.
Jamal vive uma vida simples, é honesto e íntegro numa Índia violenta e infernal, onde os maus-tratos a menores são o prato do dia de bandidos sem escrúpulos que dominam a cidade (qualquer semelhança com outras realidades de outros países... não é mera coincidência).
No entanto, Jamal não se interessa por dinheiro. Então, o que estará a fazer no programa? E como consegue acertar tudo, se não tem estudos? Será o destino?
Achei incrivelmente fantástico este enredo, que demonstra como o ser humano consegue captar (e perceber) o mundo à sua volta, a maneira como pode aprender (e como pode sofrer para o fazer) e, finalmente, para que serve esta aprendizagem (que não depende, necessariamente, da escola formal, mas da escola da vida). Eu recomendo!

sábado, 14 de fevereiro de 2009

A Troca

No último fim-de-semana fui a Lisboa e aproveitei para ir ao cinema com o meu filhote. Fomos ver um filme que ainda não havia chegado a Viseu: A Troca, realizado por Clint Eastwood, e com Angelina Jolie como actriz principal. Narra a história verídica de uma mãe que se despede do filho antes de ir para o trabalho e, na volta, descobre que a criança desapareceu. A mãe desesperada inicia, então, uma busca imparável, enfrentando polícias corruptos e um sistema que tenta, a todo o custo, calar a sua voz. Um filme íntegro, tecnicamente bem realizado, uma história chocante, mas, apesar das passagens fortes que em outra película poderiam causar lágrimas, nesta provoca pouca emoção. De qualquer forma, valeu o tempo gasto!

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

O adolescente míope

Adolescência... Quem não se lembra da sua? Confusão, descoberta, emoções, preocupações... Seja como for, cada um tem uma história, a sua história, um percurso interessante e, certamente, digno de ser narrado.
Hoje presenciei uma narrativa de alguns percursos adolescentes. Poderiam ser os percursos de qualquer um, mas era o do bailarino e coreógrafo romeno, Romulus Neagu, o do actor e encenador inglês, Graeme Pulleyn, e o do músico e compositor português, Luís Pedro Madeira. Com música interpretada ao vivo, o espectáculo "A partir do adolescente míope", que estreou no Teatro Viriato, em Viseu, constrói-se em volta da misteriosa relação entre o ser humano e o livro, o acto de escrever, o prazer de ler e a obrigação de estudar.
Trata-se de um olhar e de um reviver das adolescências dos artistas, com base no encontro entre a reflexão pessoal e a (re)descoberta da obra literária O Romance do Adolescente Míope, de Mircea Eliade, um jovem autor que escreveu o seu primeiro romance aos 17 anos.
Num cenário simples e solitário, o espectáculo concentra-se, sobretudo, na necessidade de cada um procurar a sua voz, descobrir o que precisa de dizer e como consegue dizer (através dos livros, da dança, do teatro, da música, da ciência, do desporto etc.). E esse "grupo" soube dizer muito bem. Eles cantam, dançam, correm, discutem, leem... mas principalmente, transmitem as suas histórias de uma forma muito particular.
Deixo aqui o meu agradecimento ao Romulus, que teve a gentileza de me convidar para o ver mais uma vez em palco. Amei!!!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Pomba-Gira

No início do mês postei o meu desacordo com o Acordo Ortográfico, e falei das expressões regionais que nunca poderão ser iguais, visto fazerem parte da identidade de cada povo. Expliquei que é isso que faz a diferença entre o português falado no Brasil e o português de Portugal, e não uma meia dúzia de palavras escritas de forma diferente.
Sábado passado estive a apresentar uma comunicação no Congresso Luso-Brasileiro de Psicologia da Saúde, em Faro, no Algarve, e vi uma cena caricata e engraçada que não podia deixar de relatar aqui, visto ilustrar perfeitamente o que eu disse anteriormente.
Estava um grupo de meninas pertencentes à organização do congresso (aquelas pessoas que apoiam o funcionamento de cada mesa, ligam os computadores, verificam se está tudo a correr bem) sentado num dos corredores de acesso às salas, quando o coordenador de uma das mesas aproximou-se delas.
Era um senhor brasileiro com os seus 50 e tal anos, bastante simpático, que foi prontamente aclamado por todas as meninas com muito entusiasmo (uma delas até, em tom de acolhimento, cantou: “olha que coisa mais linda, mais cheia de graça...”). Ele, não querendo ficar para trás nos elogios, retrucou: “Aqui estão as minhas belas periquitinhas!”
Elas estavam visivelmente divertidas com a conversa e, para ajudar à festa, começaram a dizer que eram umas pombinhas. Visto o assunto caminhar para o quesito “beleza”, completaram: “somos umas pombinhas giras” (para quem não está familiarizado com a palavra, gira, em Portugal, significa bonita). O brasileiro sai-se, então, com a seguinte frase: “Pombas-Giras, não! Deus me livre!” – e afastou-se lentamente do grupo.
É que Pomba-Gira, no Brasil, é um Exu-Fémea (espírito que se incorpora nos médiuns, uma entidade que trabalha na Umbanda). A Umbanda é uma crença formada dentro da cultura religiosa brasileira, que reúne vários elementos, inclusive de outras religiões como o catolicismo, o espiritismo e religiões afro-brasileiras.
Para o grupo todo, ficou um mal-entendido ou um não-entendido, que levaria algum tempo para ser explicado. Elas ficaram sem perceber o “Deus me livre” do senhor... e ele, certamente, não entendeu o “Pombas-Giras” proferido pelas raparigas.
Para mim, que assistia a cena de fora, foi uma situação interessantíssima. Simplesmente demais!
Acham que dá para uniformizar isso? Impossível! E viva a diferença!

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Meu vício, o Café

Noutro dia, num jogo quebra-gelo feito num workshop em que participei, pediram-nos que nos apresentássemos, dizendo o nome, a profissão, o signo e um vício. Assim, de repente, pensar (e confessar) um vício, não é fácil, e acabei por dizer “café”, mas pensando bem, posso dizer que é mesmo. Constantemente perco a conta do número de cafés diários que bebo, e o efeito sentido resume-se a um só: prazer!
No Brasil, eu costumava beber café de saco (aquele coado). A quantidade também era grande, mas há uma diferença entre lá e cá. Em Portugal, quando se pede um café, servem-nos sempre o café expresso (ou bica, como também é conhecido), bem mais forte e encorpado.
Assim, e desde que saí do “meu país”, adquiri o hábito do expresso de manhã, a seguir ao almoço, a seguir ao jantar, a meio da tarde, ao fim da tarde (etc., etc.), ainda em Moçambique, naqueles vários cafés espalhados pela Av. 24 de Julho, onde eu me obrigava a parar sempre que podia.
É engraçada essa coisa do hábito. Uma vez adquirido, sentimos falta quando não encontramos do mesmo.
Agora já não aprecio, infelizmente, o café servido no Brasil (excepto o que bebo em casa da minha mãe, claro!). Em Espanha, se se quer beber um bom expresso... bem, ainda não encontrei um bom expresso em Espanha porque, invariavelmente, o que nos servem por lá é uma “banheira” de água com um pó preto. Em França, dentro do meu francês inexistente, aprendi a pedir um expresso “très serré” para ter qualquer coisa parecida com a bica portuguesa, do contrário, também receberia uma banheira (caríssima, por sinal) de água e pó preto.
Por falar em bica, esse termo é a inicial da expressão "Beber Isto Com Açúcar", tendo surgido em Lisboa, quando o café expresso começou a ser comercializado, num café localizado no Chiado, denominado "A Brasileira". Ocorreu que o sabor do café era pouco agradável ao paladar, uma vez que os lisboetas não misturavam açúcar ao preparado, pelo que foi criado o slogan Beber Isto Com Açúcar, para os esclarecer. O termo teve tanto sucesso, que acabou por ficar até aos nossos dias.
Por outro lado, no Porto, o costume é pedir um cimbalino, como referência a La Cimbali, uma popular marca de máquinas de fazer café expresso.
Expresso, Bica, Cimbalino, ou somente Café (seja como for), assumo publicamente: é um "vício" bem bom!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Saudades de Moçambique

Falar do Mia Couto fez-me lembrar dos belos (embora poucos) anos que passei em África. Foram poucos, mas bons, como se costuma dizer.
Por incrível que pareça, não fui para lá com grandes expectativas. Achava mesmo que não ia gostar nada daquilo (afinal, o Oceano Índico não tem a cor do Atlântico) mas, felizmente, tudo correu diferente do que eu supunha e... amei!
De facto, África será sempre África! E o que quer isso dizer? Quer dizer que aquela terra será sempre boa, será sempre bela, será sempre acolhedora. E como me acolheu bem!
Aquele povo é simples, humilde, feliz... de tal forma, que às vezes indagamos: “como podem ser felizes com tanta pobreza, com tanta miséria?”. E a resposta está bem à vista e é tão óbvia (principalmente para alguém que veio do Brasil) que até nos envergonhamos da pergunta: é simplesmente porque o verdadeiro tesouro, a verdadeira riqueza, não está nos valores materiais e nos bens que um povo possui... está nas lições que ele sabe ensinar. E a África “sabe” disso...

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Mia Couto

Tal como prometido no post anterior, hoje vou falar do Mia.
António Emílio Leite Couto, um dos escritores moçambicanos mais conhecidos no estrangeiro, nasceu na Beira, em 1955. Ganhou o nome Mia do irmão mais novo, que não conseguia dizer Emílio. “Reza a lenda” que o escritor adoptou esta alcunha também devido a sua paixão pelos gatos desde pequeno, tendo inclusive dito à sua família que gostaria de ser um deles (verdade ou não, quem gosta de gatos, tem a minha admiração!).
Segundo a sua biografia, Mia teria dito certa vez que não tinha uma “terra-mãe”, mas sim uma “água-mãe”. Referia-se à tendência para a sua terra natal, situada à beira do Oceano Índico, ficar inundada durante a época das chuvas.
Mia Couto iniciou o curso de Medicina ao mesmo tempo que começava a fazer jornalismo, tendo abandonado aquele curso para se dedicar à profissão. Foi director da Agência de Informação de Moçambique e, mais tarde, tirou o curso de Biologia.
Vencedor de vários prémios, tem a sua obra traduzida em alemão, espanhol, francês, inglês, italiano, neerlandês, norueguês e sueco.
Pessoalmente, a sua simpatia, humildade e simplicidade não deixam as pessoas indiferentes.
No dia 7 de Março de 2005, fez uma oração de sapiência, na abertura do ano lectivo do Instituto Superior de Ciências e Tecnologia de Moçambique. Do texto, destaca-se a mensagem “Os Sete Sapatos Sujos”, que transcrevo pela beleza da lição:
“Não podemos entrar na modernidade com o actual fardo de preconceitos. À porta da modernidade precisamos de nos descalçar. Eu contei ‘Sete Sapatos Sujos’ que necessitamos de deixar na soleira da porta dos tempos novos. Haverá muitos. Mas eu tinha que escolher, e sete é um número mágico:
Primeiro – A ideia de que os culpados são sempre os outros e nós somos sempre vítimas;
Segundo – A ideia de que o sucesso não nasce do trabalho;
Terceiro – O preconceito de que quem critica é um inimigo;
Quarto – A ideia de que mudar as palavras muda a realidade;
Quinto – A vergonha de ser pobre e o culto das aparências;
Sexto – A passividade perante a injustiça;
Sétimo – A ideia de que, para sermos modernos, temos que imitar os outros.”

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O outro pé da sereia

Como gosto de partilhar o que faço e o que me encanta com os amigos, volto a falar de literatura. Estou a acabar de ler mais uma obra de Mia Couto (noutro dia falo melhor sobre ele aqui): O outro pé da sereia.
Este romance narra várias viagens, entre elas a de um missionário português que pretende converter o continente africano, a de uma jovem que quer regressar à infância e a de um casal de afro-americanos que busca um lugar encantado. Numa mistura entre presente e passado, mais uma vez o meu escritor africano favorito prende a atenção do leitor com uma história encantadora, cheia de sonhos e de realidades, repleta de lições (históricas, sócio-políticas, de vida).
Deixo dois trechos interessantes (para aguçar a vossa vontade de ler):
“A melhor maneira de fugir é ficar parado. Lição que o burriqueiro Zero Madzero aprendera com a imbabala, a gazela dos matos densos. É a fuga da presa que engrandece o caçador. O ficar imóvel é o mais astuto modo de enfrentar o predador: deixar de ter dimensão, converter-se em areia no deserto. Desaparecer para fazer o outro extinguir-se.
A melhor maneira de mentir é ficar calado. Lição que o burriqueiro não aprendera com ninguém. O silêncio não é ausência de fala, é o dizer-se tudo sem nenhuma palavra.” (p. 20)
“Os outros passam a escrita a limpo. Eu passo a escrita a sujo. Como os rios que se lavam em encardidas águas. Os outros têm caligrafia, eu tenho sotaque. O sotaque da terra.” (Epígrafe do capítulo XVI, p.271)

domingo, 1 de fevereiro de 2009

(Des)acordo!

Fala-se muito (mais ainda desde o ano passado) sobre a Nova (Velha) Reforma Ortográfica, mas ainda não percebi as vantagens disso. Aliás, acho que ninguém percebeu. Talvez porque ninguém até agora tenha dado uma explicação plausível para se gastar tempo com uma coisa que não está estragada e que, portanto, não necessita de reforma alguma. Mas tudo bem... Parece que no Brasil a coisa vai pegar mais rápido que cá, mas tudo indica que, no final, Portugal também vai aderir ao Acordo.
Ponham-se na minha situação! Vim para fora do Brasil há mais de dez anos, vivendo sempre em países que falam o português e, durante esse tempo, tive que mudar a grafia que utilizava (ato, fato, contato, adotar, ótimo, idéia, correto, objeção, direção, objetivo, afeto, entre outras palavras), passando a escrever de outra forma (acto, facto, contacto, adoptar, óptimo, ideia, correcto, objecção, direcção, objectivo, afecto). Não foi fácil adaptar, além de ter sido um processo moroso. Agora, sem mais nem menos, querem que eu volte a escrever como dantes? Ora essa... era o que faltava!
Falando mais a sério (e dificuldades particulares à parte), na minha opinião, o Acordo é totalmente inútil! Trará custos que acabarão por ser bem superiores aos benefícios (se é que os há). Gramáticas novas, dicionários novos, livros novos... e para quê?
Aparentemente, tudo foi elaborado em nome de uma suposta unificação. Unificação esta, completamente desnecessária, já que a essência da língua está (e continuará a estar) toda lá, quer se adopte (ou quer se adote) ou não, uma nova grafia. Não há alterações nisso, na essência. E, no fundo, é isso que interessa.
Ler um texto escrito em português do Brasil ou em português de Portugal será sempre igual, visto que os regionalismos continuarão a existir, a utilização do gerúndio será sempre maior lá que cá, a concordância e a aplicação do pronome continuarão diferentes.
O mercado editorial de ambos os países nunca esteve em baixo por causa dessas pequenas diferenças, pois um livro publicado em Portugal sempre pôde ser vendido no Brasil (o meu o é, por exemplo), e vice-versa.
As diferenças que, eventualmente, poderão causar alguma dificuldade na interpretação, são as de ordem vocabular, nunca de grafia. Muitas palavras que no Brasil e em Portugal têm significados diferentes, permanecerão no vocabulário de cada país depois de entrar em vigor o Acordo (por exemplo: rotatória e rotunda; celular e telemóvel; presunto e fiambre; terno e fato; água sanitária e lixívia; pedestre e peão; aposentado e reformado; camisola e camisa de noite; calcinha e cueca; e várias outras). Então para que complicar?!
Por mais que eu procure, não encontro mesmo qualquer justificação para essas mudanças de grafia. Em nome de uma unificação, o que se vai fazer é criar instabilidade, sem se conseguir unificar nada. Defende-se que “apenas” 0,43% do vocabulário brasileiro, e 1,42% do português, serão afectados. A meu ver, não se trata de quantidade, mas de qualidade. O que interessa é que essa inconsequência (ou inconseqüência) vai causar mais confusão do que se imagina (na minha humilde opinião, claro!).

sábado, 31 de janeiro de 2009

Me gusta

Na última quarta-feira, fui ao teatro! A acompanhar-me, foram o Khalid e a Margarida (e lá no bar do teatro ainda encontramos a Cristina).
Me gusta, da companhia belga Laika, o espectáculo escolhido para aquela noite, estava em cartaz no Teatro Viriato, em Viseu. Foi uma interessante aventura cultural (e culinária), repleta de surpresas, e com um repertório musical a condizer.
Para o compor, foram realizadas entrevistas, que recolheram ideias sobre as diferentes práticas culinárias, os diferentes costumes, os diferentes rituais, as diferentes tradições, que fazem do acto de comer um acto social, importante em qualquer cultura.
Assim, foi abordado, num cenário oval com a plateia sentada no palco, vários aspectos da gastronomia de povos de diversas partes do mundo, oscilando entre o rigor e a exuberância, o formal e o exótico (uma cerimónia de chá japonesa, um banquete canibalesco, a comida rápida e plastificada servida nos aviões, o amassar do pão, a pasta italiana, o uso do sal e do açúcar), tudo precedido de um ritual de lavagem de mãos efectuado pelos artistas a cada pessoa da plateia.
O enredo, repleto de instruções sobre o bem comer, o bem provar e o bem saborear, conta com a participação de três actores, uma bailarina e dois cozinheiros, e está adaptado a cada língua dos diferentes países onde a companhia se apresenta.
Durante a encenação, é servido um jantar completo composto por uma sopa, um prato de massa e a sobremesa, aos quais também se junta o vinho.
Devo dizer, no entanto, que o final ficou a saber a pouco. Não sei... esperava qualquer coisa a mais para fechar com chave de oiro! De qualquer maneira, foi uma forma divertida e interessante de passar a noite. Jantar e ir ao teatro ao mesmo tempo pela módica quantia de 15,00€, não é coisa que se faça todos as noites.
E porque a mim "me gustó", digo a vocês que vale a pena experimentar!

domingo, 25 de janeiro de 2009

Agora são os filmes

Actualmente, não sei porquê, entrei numa de fazer balanços... Não tentem interpretar isso, pois a psicóloga aqui sou eu, e digo que não há nada para interpretar.
Verdade! A explicação até é simples. Tudo começou com a tal crise económica... Comecei por apontar as despesas grandes, passei às pequenas contas e, quando dei por mim, já estava a contabilizar lugares, espectáculos, musicais, enfim. Também parece ser uma forma diferente de passar o tempo (tal como escrever num blogue).
Bem, agora virei-me para o cinema. Não sou cinéfila, mas gosto de um bom filme, e aprecio a distracção e a riqueza (cultural, moral, espiritual etc.) que um bom enredo pode trazer. De há uns tempos para cá, mudei o género diversas vezes. Gostava de dramas, de filmes românticos; depois passei aos filmes de aventura; a seguir vieram as comédias; e por fim, nesse preciso momento da minha vida, gosto de filmes bons, que me atraiam na leitura da sinopse.
Já que a ideia é fazer balanço, não vou maçar-vos com os filmes do ano passado, mas vou falar dos dois que vi em 2009, que estão fresquinhos, fresquinhos na memória (e que recomendo).
O primeiro, assisti em vídeo, porque é uma produção que estreou nos cinemas em 2005. Chama-se Colisão, e lança um olhar directo e provocador sobre as complexidades da (in)tolerância racial na América actual. A maioria das personagens retratadas no filme são, de alguma maneira, prejudicadas pela sua etnia ou nível social, e acabam envolvidas em conflitos que as forçam a examinarem os seus próprios preconceitos. O filme não deixa as pessoas indiferentes diante da sua imprevisibilidade e ausência de julgamentos, ainda que não totalmente isento de uma moral subjacente a qualquer história cinematográfica, e que é traduzida (também) na frase de uma das personagens: "Pensas que sabes quem és? Não fazes a mínima ideia!".
No filme, cerca de vinte personagens interpretadas por um excelente elenco (uma dona de casa e o seu marido, advogado estatal; um persa, dono de uma loja, a sua mulher e a sua filha, que é médica; dois polícias detectives, que são também amantes, a mãe dele; um director de televisão afro-americano e a sua mulher; um mexicano serralheiro, com mulher e uma filha pequena; dois ladrões de automóveis, um polícia recruta e outro veterano, cujo pai está doente; uma funcionária da Segurança Social; um casal coreano de meia-idade), vivem em Los Angeles e, durante 36 horas, entram em colisão. Colisão no sentido do toque, já que nesta cidade, sente-se a falta do toque, do conhecimento, do contacto com os outros. Como eu disse: vale a pena ver!
O outro filme, vi no cinema na semana passada. Chama-se O Estranho Caso de Benjamin Button, e fala sobre a impossibilidade de parar o tempo, sobre os encontros e desencontros da vida, sobre aproveitar os momentos, sobre o início e o fim. Começa com “Eu nasci sob circunstâncias pouco usuais", e conta a impossível história de um homem que nasce com oitenta anos e regride na sua idade. O filme foca questões sociais, de forma crítica e, de alguma maneira, ajuda-nos a acordar para a vida, ensinando que é uma grande tolice perdemos tempo a pensar no tempo que passa, sem nos lembrarmos de viver o tempo presente. Interessante!

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Mais Balanço Cultural

Já que entrei nessa de balanço cultural, continuei a remexer nas minhas memórias e verifiquei que ando em falta com algumas das boas coisas da vida... como um belo espectáculo musical, por exemplo, ou uma boa peça de teatro.
Mais uma vez, correndo o risco de desiludir a minha "legião de fãs", confesso aqui os meus pecados, e faço votos (para mim própria) de um 2009 mais movimentado nessa área também.
Deveras, a última vez que assisti um espectáculo musical foi quando vi a Marisa Monte no Coliseu de Lisboa, em Setembro de 2006, no seu Universo Particular. Pois é, foi um dos concertos mais bonitos que já tive o prazer de presenciar, e que partilhei com o meu amigo João Alexandre (a quem volto a agradecer – desta vez em público – pela agradável companhia). Marisa Monte apresentou-se num cenário interessante e simples, com recurso a imagens projectadas, luzes e uma composição do palco em degraus que vão e vêm. Este espectáculo foi composto maioritariamente por faixas dos seus dois últimos álbuns, mas não deixou de ter presente músicas gravadas pelos Tribalistas e canções de álbuns mais antigos como a Segue o Seco. A Dança da Solidão e a encenação de Meu Canário, com um canário virtual (ou politicamente correcto, como Marisa o chamou) prenderam, particularmene, a minha atenção.
Quanto ao teatro, aqui também o (meu) verbo está escrito no passado. Uma das últimas peças que vi foi encenada no Teatro FAAP, em São Paulo, em Novembro de 2007, quando aproveitei a minha curta estadia de uma semana para ver Ensina-me a Viver, com Glória Menezes, João Falcão, Ilana Kaplan e Fernanda de Freitas (creio que estou a esquecer de algum nome). Na narrativa, Harold (João Falcão) é um jovem de vinte anos que vive como um idoso, obcecado pela morte, e Maude (Glória Menezes) é uma senhora de quase oitenta anos completamente apaixonada pela vida. A partir do encontro destas duas pessoas tão diferentes, uma trama se desenrola com uma tocante e bem-humorada história de descobertas entre ambos, repleta de mensagens positivas do tipo “o amor é o melhor remédio”, onde o velho rapaz aprende com a jovem senhora sobre o prazer de viver.
Depois disso, e de regresso a Portugal, voltei várias vezes ao teatro (primeiro, no Carlos Alberto, no Porto e depois no Teatro Viriato, em Viseu) ao longo do mês de Fevereiro de 2008 (sozinha e também com diferentes acompanhantes), para ver um único espectáculo: A Invisibilidade das Pequenas Percepções, onde o coreógrafo Romulus Neagu realiza o encontro entre uma pessoa com deficiência, José António Correia, e outra proveniente de um Lar de Infância e Juventude (a Instituição onde, por acaso, sou Directora Técnica), Ana Isabel Gomes (uma menina especial e talentosa). Uma obra de dança contemporânea, onde os três contam as suas histórias através de movimentos corporais que, num crescendo de emoções, não deixam o público indiferente. A completar e acompanhar a composição, a presença do músico Ulrich Mitzlaff, proporciona momentos sonoros únicos.
Por último, em Março de 2008, fui com a minha colega e amiga Anabela ao Teatro Viriato novamente, dessa vez para assistir ao espectáculo Maldoror, dos Mãos Morta, composto a partir de “Os Cantos de Maldoror”, a obra-prima literária de Isidore Ducasse (pseudónimo de Conde de Lautréamont). Um espectáculo único, perturbador, que faz uma crítica provocadora a alguns aspectos da nossa realidade, e onde a música brinca com o teatro, o vídeo e a declamação. A caracterização dos personagens contrastavam com os vídeos, de uma simplicidade infantil, que eram interrompidos quando o narrador utilizava uma mini-câmera para realçar alguns pormenores da peça. Diferente e interessante!

sábado, 10 de janeiro de 2009

As minhas leituras em 2008

As pessoas fazem balanços (do ano, da empresa, da vida, enfim) no final de cada ano... Eu, como boa rebelde que sou, faço-os quando me apetece.
Hoje, fazendo um balanço do que fiz em 2008, portanto, resolvi lembrar da “lista” de livros que li, e... grande vergonha! Afinal, apesar de ter comprado alguns títulos e de me terem presenteado com outros tantos, li apenas 3 livros durante todo o ano! Eu não devia confessar isso aqui, diante de toda a minha grande "legião de fãs", mas é verdade. Nem parece coisa minha... mas enfim... é uma realidade que tenho que aceitar e – se tiver disposição – mudar em 2009.
Falo em disposição porque não acredito na desculpa da falta de tempo. Sempre citei (e assumi como parte da minha filosofia de vida) a frase: “falta de tempo é a desculpa dos que perdem tempo por falta de método”. Acho, por isso, que tudo o que fazemos depende da nossa motivação, da nossa vontade, da nossa disposição.
Não faço promessas (de qualquer natureza), mas espero que em 2009 eu possa ter muita motivação, vontade e disposição para a leitura, mas por enquanto, permitam-me partilhar as minhas 3 leituras de 2008 convosco.
O primeiro livro (Orgias) foi escrito pelo meu querido Luís Fernando Veríssimo. Sou fã, mas não sou cega e, apesar de tudo o que já li (e gostei) dele, não considero Orgias uma obra-prima. De qualquer forma, com o seu toque pessoal bem distinto, ele continua a construir as crónicas com a inteligência e o sarcasmo que sempre o caracterizaram. Com bom humor, Veríssimo passeia pelas tentações e prazeres humanos e afirma que perder o controlo é necessário e saudável. Os seus temas “orgiásticos” vão desde as festinhas de anos infantis, passam pelas festas de final de ano nos escritórios e terminam nas grandes loucuras de carnaval. Deu para passar o tempo.
O segundo livro (Venenos de Deus, Remédios do Diabo), do meu não menos querido Mia Couto, eu amei! Nesta obra, um médico português de nome Sidónio Rosa decide fazer trabalho cooperativo em Moçambique para tentar encontrar a sua querida Deolinda, uma mulata que conheceu num congresso em Lisboa, e por quem se apaixonou. Chega a Vila Cacimba, e encontra os pais da moça – Bartolomeu Sozinho e Dona Munda – que justificam a ausência da filha com um suposto estágio. No decorrer da história, o médico é surpreendido por histórias antagónicas sobre o que terá acontecido a Deolinda e sobre o passado da família Sozinho. Mia sabe contar uma história, e vai doseando a informação, de modo a que personagem e leitor venham a conhecer os factos ao mesmo tempo. A linguagem apresentada é típica em todas as suas obras, com palavras alteradas e provérbios de pura filosofia popular (alguns felizes, outros nem por isso, mas nada que tire o encantamento da narrativa). É, sem dúvida, um livro que envolve.
O terceiro livro (O Vendedor de Passados), do para mim até então desconhecido José Eduardo Agualusa, conta a história de Félix Ventura, um negro albino especialista em reescrever a biografia de personagens da emergente sociedade urbana de Angola, tornando interessante a vida dos novos ricos angolanos, que têm dinheiro e poder, mas aos quais falta um passado consistente. A história é narrada por Eulálio, uma osga que habita a casa de Félix, e que busca na sua passada vida humana (viveu quase um século na “pele de homem sem se sentir inteiramente humano”) indícios de outra encarnação, de modo a compreender as suas emoções e reconhecer os vestígios literários e a sua aguçada percepção. O vendedor de passados mais tarde se apaixona por Ângela Lúcia, fotógrafa “de nuvens” cuja vida se entrelaça à de outras personagens da narrativa, José Buchmann, um fotógrafo de guerra, que procura um novo passado junto a Félix, e o mendigo Edmundo Barata dos Reis, comunista assumido, “ex-agente e ex-gente” nas palavras do próprio. Esta obra mostra um pouco da cultura angolana e representa uma crítica à sua sociedade. A trama toda é muito interessante e o final, inesperado e surpreendente!

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Cupuaçu no Continente!

Sabem quando encontramos um conhecido que não vemos há muito tempo (mas com quem também não temos muitos assuntos) e, no início da conversa, após o tradicional: “— Tu por aqui? Há quanto tempo! Tudo bem?” — surge a pergunta: “— Então, e novidades?”. E lembram qual é a resposta que, invariavelmente, recebemos (desde a propaganda do supermercado Continente)? “— Novidades? Só no Continente…”
Oiço isso há muito tempo cá em Portugal, e bem que procuro por novidades lá no tal Continente quando vou às compras… mas o que encontro é sempre o mesmo (as mesmas marcas, os mesmos preços, os mesmos pseudo-descontos… enfim!).
Por isso, enorme foi a minha surpresa quando, num desses dias, comprovei o que dizem. Não é que encontrei uma grande novidade lá no Continente? Acreditem, porque é verdade! Encontrei polpa de cupuaçu, gente! Não, não estou a inventar. Já havia visto polpa de muitas frutas naquele supermercado: manga, acerola, entre outras, mas cupuaçu... nunca!
E lá estava ela, a pedir que eu a levasse para a casa, preparasse um delicioso creme e um sumo para acompanhar, e saboreasse tudo como quem come um doce pela primeira vez… Hummm! Que delícia!
O cupuaçu é daquelas (muitas) coisas que carregam o sabor da Amazónia. A gente põe uma colher de creme na boca, fecha os olhos e viaja… Eu viajei! Deu para andar na sombra das mangueiras (sob um “ameno” sol de 40°), visitar o Museu Emílio Goeldi, caminhar pela confusão do Ver-o-Peso, passear pela Praça da República, ler um livro tranquilamente no Parque da Residência, dar um saltinho a Mosqueiro, vaguear pela orla de Icoaraci, sentar para ver o rio Guamá da Estação das Docas… Enfim!
A sensação é a mesma descrita na música "Não peguei o Ita", de Nilson Chaves: “Mas ponho na boca um gosto de cupuaçu, meu hálito cruza o país de Norte a Sul… e sinto o prazer de saber que eu sou e o que sou para o mundo”
Xiii! Que nostalgia! Mas é bom…

domingo, 4 de janeiro de 2009

Perguntas sem Respostas

Bem... isso dos anos da Lídia fez-me pensar um bocadinho (mas só um bocadinho, para não acostumar).
Como estarei eu aos 40? O que mudará? Sim, porque não tarda nada (16 de Janeiro) terei 38... Daí para os 40 será um pulo (ou 730 dias, o que dá ao mesmo).
Lembro-me que aos 10/12 anos ficava a imaginar como seria a minha vida quando tivesse 30...
Tudo parecia tão distante, tão remoto, tão inalcançável... e de repente, bum! Vinte anos, 25, 29 e... 30! Não foi mau, pelo contrário. Aprendi bastante, arrisquei o suficiente, descobri sentimentos, conheci lugares, encontrei pessoas, realizei coisas, apurei gostos e paladares, mudei muito...
Aos 29 anos um episódio mostrou-me uma parte dessas mudanças...
Fui convidada, juntamente com outros professores (a maioria já passada dos 40, e apenas uma da mesma idade que eu), para a festa de aniversário (18 anos) de uma aluna de quem todos gostávamos muito. Estávamos em Maputo, e o local escolhido pela menina foi uma casa nocturna de público maioritariamente jovem.
No início, tudo bem, a música não incomodou muito, eu estava a curtir a festa. No entanto, o ritmo (sempre o mesmo) começou, a pouco e pouco, encher os ouvidos (e a paciência). Devo aqui ressaltar que aquele tipo de música não me incomodava antes. Passados trinta minutos de lá estarmos, eu não via a hora da moça soprar as velinhas, de modo a que pudéssemos ir embora. Comentei isso com a Patrícia (a tal “jovem” da mesma idade que eu) e ela disse que estava a sentir o mesmo. Rimo-nos bastente da situação, e dissemos, quase que a sussurrar: "acho que estamos a ficar velhas..."
Confesso que aquela constatação não me incomodou em nada... A sensação era de alívio. Dei-me conta de que estava a apurar mais um gosto...
A aniversariante finalmente fez-nos o favor de cortar o bolo e, ao fim de quinze minutos, estávamos a dançar todos muito animados no “Sixties”, um point da malta madura da cidade.
Mas voltando aos meus futuros (e "longínquos") 40 anos... Como serão? O que vai mudar? O que irei aperfeiçoar desta vez? Deixo as perguntas, porque, definitivamente, não tenho as respostas...

sábado, 3 de janeiro de 2009

40 Anos

A minha amiguinha fez ontem 40 anos de existência! Pois é... ela chegou lá primeiro que eu... E chegou em forma... que forma! Também, verdade seja dita: ela sempre foi pequenininha, não havia muito por onde aumentar, não é? (Mulheres... Mesmo quando elogiam outra, dão um jeito de envenenar um bocadinho!).
Agora a sério, sempre brinquei com o tamanho dela e, todas as vezes que eu lhe dizia que os pais quando a fizeram estavam a testar o protótipo para depois executar a obra verdadeira (o irmão), ela respondia:
– Nada disso! Não sou pequena, sou concentradinha nas devidas proporções!
Ela é que está certa! Alegre, bem disposta, às vezes birrenta, mas sempre de bem com a vida! Felicidades, Lídia!

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Ano Novo, Vida Nova!

Com ou sem crise, como em todos os Dezembros, a expectativa é de que o novo ano seja melhor. Sempre foi assim, porque o ser humano (graças a Deus!) tem uma incrível capacidade de sonhar (o poeta já dizia: “o sonho comanda a vida…”, não é?). E é nesse sentido que o ano de 2009 vai andar...
Poderia aqui citar as coisas boas ocorridas em 2008 (porque houveram), mas o que interessa é o que pode ficar melhor, ou o que pode ser “concertado”. Sim, porque correndo o risco de parecer utópica, acredito que tudo tem concerto (até as pessoas). Penso, tal como o poeta, que é preciso viver o sonho e a certeza de que tudo o que está mal vai mudar, vai avançar, vai melhorar, pois a vida está nos olhos de quem sabe ver, e nas mãos de quem sabe fazer acontecer.
Mas o que tivemos em 2008, então? Reformas políticas, reformas na lei, crise económica, aumento da criminalidade, secas, inundações, doenças, desemprego, exclusão social, abandono e maus-tratos a menores, violência doméstica…
E o que poderá ser diferente em 2009? Acredito que tudo! Sim, tudo mesmo. Porque a mudança dependerá de cada ser humano que tem capacidade para apontar o que está mal, farta-se de reclamar e, muitas vezes, permanece parado, inerte, a ver o que é que “aquela gente que está lá em cima vai fazer pelo povo”.
É certo que sem igualdade social o crescimento económico deixa de ser sustentável. Se os cidadãos não tiverem oportunidades disponíveis, os mercados trabalharão unicamente para uma minoria rica. Isto significa que é necessário proporcionar a todos acesso à educação, à saúde e a um trabalho digno.
Actualmente, e cada vez mais, as pessoas concordam que a pobreza num lugar qualquer é pobreza em todas as partes. Necessitamos de um sistema baseado nos direitos humanos, na igualdade e na justiça social. Para isso, o papel das associações da sociedade civil, dos profissionais de todas as áreas, da população em geral, é muito importante. O futuro está nas nossas mãos, não nos devemos posicionar como espectadores!
Anualmente a União Europeia escolhe um tema com o objectivo de sensibilizar o cidadão e chamar a atenção dos governos nacionais para as questões com ele relacionadas. Por mais abrangentes que sejam os temas eleitos, eles são o reflexo das preocupações das organizações europeias e dos Estados-Membros. Em 2009 (a partir de 7 de Janeiro), teremos o Ano Europeu para a Criatividade e a Inovação, através da Educação e da Cultura.
A UE defende que uma abordagem criativa é a chave do sucesso numa economia global. A inovação é uma parte essencial tanto do pacote de medidas da Comissão como do seu plano de relançamento da economia europeia. Assim, a Europa é “chamada” a desenvolver o seu potencial criativo. Em particular, os cidadãos europeus se devem mostrar abertos à mudança, estarem receptivos a estratégias inovadoras e, principalmente, serem actores dessa mudança.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Um Gesto Natural

Pergunto-me com frequência, porque será que na altura do Natal as pessoas ficam, de repente, tão caridosas, tão solidárias.
Sim, é verdade! A generalidade das pessoas não se lembra que existem crianças, jovens e adultos, deficientes, doentes ou a sofrer de outro mal ao longo do ano. Parece que Dezembro é o mês do sofrimento. E é o mês de mostrar que fazem qualquer coisa pelo próximo, quando mais não seja juntar os velhos brinquedos (alguns até partidos e, consequentemente, sem qualquer utilidade) que os filhos já não querem mais, para dar a crianças carentes, quase como a dizer que, por serem necessitadas, não merecem coisas inteiras.
Aqui impõem-se outras questões: Porque as pessoas confundem estes gestos com caridade e amor ao próximo? Porque as pessoas pensam que, ao chegar a noite de Natal, podem ir a um orfanato ou a um lar onde haja uma criança afastada da família por alguma razão, e levar essa criança para a casa, assim, sem mais nem menos, sem qualquer vínculo estabelecido, sem qualquer laço de afecto, e acham que estão a fazer um bem? Porque as pessoas não fazem pequenos gestos o ano inteiro, não criam laços e compromissos para que, na altura do Natal, o acto de dar possa ser visto e sentido como mais natural?
Matilde Rosa Araújo, escritora e professora, nascida em Lisboa em 1921, cuja voz tive a felicidade de ouvir recentemente numa tertúlia organizada pelo Solar do Vinho do Dão, em Viseu, oferece-nos algumas lições nos seus escritos e, a propósito daquilo a que chamamos caridade, no final do seu conto “A fita vermelha”, ela deixa um conselho: “... não adiem os vossos gestos. Procurar alguém que sofra, que precise de nós, nem sequer é um gesto generoso, deve ser um gesto natural, que se não adia.”

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Provar o Batom...

Acho que há uma grande diferença entre um piropo e um galanteio.
Oiço piropos desde a adolescência (e detesto!). Quanto aos que fazem bons galanteios… simples ou elaborados, directos ou subtis… Uau! Ganham a minha admiração!
Em Portugal (felizmente), até onde tenho tido oportunidade de reparar, o uso dos piropos não é tão frequente como no Brasil (talvez porque eu cá não ande tantas vezes a pé como lá… mas enfim!).
Lembro-me que lá pelos meus 16/17 anos, estava a falar com um rapaz visivelmente interessado na minha pessoa, a quem eu tinha sido apresentada há uns dias por amigos comuns. Já nos tínhamos encontrado algumas vezes em diferentes situações. Ele não era de se deitar fora, e a conversa até estava interessante. Lá pelo meio da prosa, depois de elogiar a minha boca (num galanteio fraquinho, mas admissível no contexto), saiu-se com essa:
– Deixa-me provar o teu batom?
Eu, que sempre fui muito directa, rapidamente abri a carteira, tirei de lá um batom e entreguei-o ao pobre rapaz, que ficou visivelmente atrapalhado com a minha piadinha. Tadinho dele!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

O Homem dos Sonhos

Moreno, alto, bonito, sensual, olhos verdes, elegante (leia-se: em forma), inteligente, atencioso, forte para proteger, mas ao mesmo tempo meigo e carinhoso, preocupado em fazer feliz a mulher amada... um príncipe!
Mais cedo ou mais tarde, "ele chegará montado num cavalo branco"! E então se vai viver o verdadeiro sonho... "um amor e uma cabana".
A medida que os anos passam, o relógio biológico toca, o pragmatismo vence. Os rígidos critérios de selecção sofrem uma “pequena” reforma:
Já não é preciso ser príncipe, basta ser educado... não é preciso cavalo, porque um carro razoável serve... não tem que ser moreno e de olhos verdes, a altura não é importante e a barriguinha até tem charme... a cabana, só de férias (e assim mesmo com ar condicionado ou aquecimento central, conforme o caso). Pode não ser o príncipe encantado... mas é tão parecido!
Assim, "não é moreno, é loiro... não é alto, é baixo... não é elegante, é gordo... não é o homem dos sonhos, mas serve...". E então vivem felizes para sempre...

domingo, 14 de dezembro de 2008

O Carteiro

"Quando o carteiro chegou e o meu nome gritou com a carta na mão (…) nem sei como pude chegar ao portão…"
A emoção reflectida nesta letra de Cícero Nunes e Aldo Cabral é a mesma que eu sentia, quando era adolescente, cada vez que ia à caixa de correio e via que tinha uma carta para mim.
O advento da internet veio mudar essa sensação, já que hoje uma carta (ou, nesse caso, um e-mail) pode levar menos de um minuto a chegar ao seu destino. Vejam bem, não tenho nada contra a internet (não teria eu um blogue), mas sinto uma grande nostalgia quando lembro daquela época.
Antes mesmo da existência da internet, eu já tinha amigas virtuais. Sim, daquelas que eu só conhecia por carta. Encontrava-as nos jornaizinhos dos grupos de bandeirantes e escoteiros que eu participava ou nas revistas de banda desenhada, que destinavam um espaço para quem quisesse fazer amigos à distância. E costumava “falar” com as minhas amigas virtuais através das cartas como se as conhecesse pessoalmente.
Eu tinha um bloco de cartas, aliás, mais do que um… alguns tinham folhas com desenhos e frases de rodapé… outras eram perfumadas, para as missivas mais delicadas.
Escrevia à mão, claro, já que as mensagens escritas à máquina eram tidas como muito impessoais. No início, dada a falta de experiência, costumava fazer um rascunho da carta, para depois passar para o papel definitivo, sem rasuras. Com o tempo, passei a escrever directamente no papel de carta (já sem qualquer erro). Raramente mandava uma folha só… muitas vezes parecia um livro, tantas eram as páginas escritas, tantas eram as novidades a relatar!
Subscritava carinhosamente o envelope (que podia ter várias cores, tamanhos e formatos), levava-o ao correio mais próximo, onde comprava um selo (muitas vezes mais que um, dado o peso do pacote), e depositava-o na caixa. Depois, esperava, esperava, esperava pela resposta… e, quando ela chegava, abria o envelope com muito cuidado, e lia as novidades avidamente.
Porque tanto trabalho para abrir um simples envelope? Porque eu sabia que lá bem distante, noutra cidade ou noutro país, alguém o havia subscritado com carinho, tal como eu fazia. Alguns até tinham o perfume das mãos de quem o tinha tocado... Pois é, a carta continha, para além da emoção das novidades, um cheiro, uma textura, uma forma...
O carteiro, naquela altura, fazia parte do meu dia-a-dia, do meu imaginário, dos meus sonhos... Mas hoje, infelizmente, sinto que aquela figura mística do "carteiro que surpreende" está em extinção.
Hoje, o carteiro é mensageiro, na maior parte das vezes, de correspondências que saem da caixa de correio directamente para o lixo. Já não trás novidades, não trás emoção. Já ninguém o espera passar, ninguém pergunta por ele...
Agora, na maioria das vezes, ele caminha quilómetros de distância para fazer entregas que já não comovem…

sábado, 13 de dezembro de 2008

Debaixo da Cama

O imaginário infantil é mesmo espectacular!
Quando eu era criança, o nome Waldir, não sei porque, me assustava. Lá em casa ninguém conseguia entender quando eu corria para debaixo da cama sempre que ouvia dizer que o tio Waldir havia chegado.
Na época eu contava cerca de três aninhos. Vivíamos num grande apartamento em Passo Fundo, Rio Grande do Sul, terra de nascimento da minha mãe. A sua família, quase toda de lá, visitava-nos com frequência.
Lembro-me particularmente dos dois tios da minha mãe (meus tios-avós, portanto) que se chamavam Waldir e Walmor. Não me recordo bem da fisionomia deles, só sei que eram pessoas “normais”, nada assustadoras.
Mas algo me assustava no tio Waldir!
Ele chegava à nossa casa e, mal eu ouvia dizerem que era ele o visitante, corria para o quarto e enfiava-me debaixo da cama. Não havia quem me tirasse de lá! Enquanto a visita durasse, o meu porto seguro era ali. Outras crianças achavam que havia monstros debaixo da cama, eu achava que aquele era um lugar livre de perigos.
Certo dia, a minha tia Bel resolveu mudar as regras do jogo. A campainha tocou, ela abriu a porta e recebeu o visitante com um grande sorriso:
– Sr. José! Como está? Entre, Sr. José, seja bem-vindo!
Eu não era um bicho-do-mato e, para mostrar que era sociável, lá fui eu, muito timidamente, para perto da tia Bel, cumprimentar o “Sr. José”. Ele trouxera uma lembrancinha para mim (uma caneta toda enfeitada), tão querido que era! Fui para o seu colo, toda contente com o presente, e lá fiquei por um bom tempo.
Só mais tarde é que me contaram que, afinal, o “Sr. José” era o tio Waldir.

sábado, 6 de dezembro de 2008

A Parede é Verde!!!

É incrível como a pessoa que está num país que não é o seu de origem, ouve sempre questões do género: "Gostas de cá?"; "Onde preferes viver: cá ou na tua terra?"; "Sentes saudades de lá?" Enfim, essa talvez seja uma maneira menos trabalhosa de iniciar uma conversa, um modo de saber se vamos falar bem ou mal do lugar onde vivemos, ou simples curiosidade, não sei... O facto é que me deparo frequentemente com essas perguntas. Não é que me incomodem muito, não. Apenas repito, invariavelmente, as mesmas respostas, e isso é que talvez já canse um bocadinho.
Bem, então lá vai outra vez, para quem ainda duvidava: Gosto muito de Portugal e da sua gente! Gosto muito de cá estar, de trabalhar cá, de viver cá, de conviver cá... Gosto! Acho que se não gostasse, já tinha ido embora há muito.
Saudades "de lá"? Claro! Mas quem não sente saudades de alguma coisa na vida? E qual é o mal em sentir saudades? Aliás, a saudade é um sentimento super-saudável! Sim, porque ninguém sente falta de coisas más, não é? Então, sentirmos saudades, é uma confirmação viva de que vivemos coisas boas!
Bem, mas já que estou nessa de esclarecer o que sinto por Portugal, repito que amo o seu povo! Quero dizer, eu gosto de gente de um modo geral (sou um animal muito, muito social... e, talvez por defeito profissional, gosto imenso de observar as pessoas), e em Portugal, de Norte a Sul (ou de Sul a Norte... dependendo de quem vem ou de quem vai...), o povo é interessante, a sua cultura é fascinante, o seu modo de estar é encantador!
Voltando ao meu querido Porto, do qual já falei aqui muito an passant, permitam-me recordar aquela mesma noite de Fevereiro, ainda na Livraria Lello...
Como eu disse, chovia muito. O acolhimento caloroso lá de dentro contrastava com o frio que fazia lá fora.
Era quase hora de fechar, já tínhamos feito as nossas compras, o estómago nos avisava que seria uma boa altura para jantarmos, e resolvemos pedir indicações ao vendedor sobre onde se podia comer bem.
Conversando com ele estava um cliente (pareciam conhecidos ou amigos de longa data) que, aquando da conversa sobre África e escritores africanos, também deu a sua opinião. Foi ele quem respondeu ao nosso pedido de informação. Disse-nos qualquer coisa como:
- Gosto muito do Cafeína, um restaurante que fica na Foz... sou cliente assíduo... sou gourmet e gosto de um prato bem confeccionado. Tenho a certeza de que vocês não se vão arrepender.
Ainda brincou:
- Ah, não se preocupem, não ganho nada em indicar a casa... sou só um cliente.
E completou:
- Não é obrigatório, mas é sempre bom fazer reserva... Se quiserem, eu tenho cá o telefone.
Nós agradecemos, e dissemos que queríamos, mas qual não foi a nossa surpresa, quando o vimos telefonar do seu próprio telemóvel, e fazer-nos a reserva!
É assim a gente do Porto (acho que do Norte em geral): solícita, simpática, bem intencionada. É também isso que eu gosto em Portugal.
Bem, mas lá fomos nós, seguindo as indicações do nosso novo amigo.
À chegada, deparámo-nos com uma casa restaurada do início do século passado, cujo espaço interior, divido em duas salas, apresentava uma decoração sóbria e elegante, com uma iluminação discreta. A cozinha é do tipo internacional, com raiz portuguesa e alguns traços de influência francesa. Resumindo: um encanto!
A dada altura da conversa, ao olhar em volta e observar o requinte da decoração, comentei que gostava da cor preta da parede. Vi vários olhos a virarem para mim, até que o Fernando perguntou, surpreso:
- Estás a falar a sério?
À minha confirmação, ele disse:
- Etã... a parede é verde!!!
E não é que era mesmo!? Podem comprovar abaixo... O meu engano deve-se ter devido aos óculos... Esperem! Mas eu não uso óculos...

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Vidas, Sonhos e Memórias

Era uma noite chuvosa de Fevereiro. Andávamos pelo Porto a procura de novidades e lembrámo-nos que, bem perto do Hotel (o Euro Star das Artes), havia a livraria Lello, situada numa belíssima casa inaugurada em 1906. Há muito falávamos em lá ir, não só pelos livros, mas pela beleza da construção, um edifício com fachada em estilo neogótico, onde se destaca no interior, a decoração em gesso pintado imitando madeira, a escada de cimento armado de acesso ao piso superior, e o grande vitral do teto, que ostenta o monograma e a divisa da livraria: Decus in Labore.
O ambiente entre os livros sempre foi para mim muito acolhedor, mas aquele era mesmo especial, principalmente pela simpatia com que fomos atendidos.
Claro que, entre outros autores, eu estava a procura de Mia Couto. E obviamente que o encontrei… Mas descobri também alguém que eu desconhecia. Um novo autor (pelo menos para mim) que – garantiu o vendedor – eu iria gostar muito, “uma vez que gostava do Mia”.
Foi nesse dia que fiquei a conhecer a obra de José Eduardo Agualusa, angolano nascido em 1960, que tem ganho muitos prémios de literatura.
Dele comprei um livro escrito em 2004, ganhador do Prémio Independente – Ficção Estrangeira: O vendedor de passados.
Como ainda tinha outros na fila, acabei de o ler recentemente. Para além de toda a trama, que dá muito o que pensar, há ali coisas interessantíssimas… e, lá pelo meio, encontrei um trecho que fala de vida, sonho e memória:
“A memória é uma paisagem contemplada de um comboio em movimento. (…) São coisas que correm diante dos nossos olhos, sabemos que são reais, mas estão longe, não as podemos tocar. Algumas estão já tão longe, e o comboio avança tão veloz, que não temos a certeza de que realmente aconteceram.”

domingo, 23 de novembro de 2008

Uma aventura na Floresta...

E por falar em recordações de infância, lembro-me de uma viagem para Boa Vista... tinha eu 13 anos.
Começou no Jaru, cidadezinha do interior de Rondônia, que era onde estávamos "hospedados" há algum tempo. Éramos um grande grupo de pessoas, e seguíamos em dois ou três carros igualmente grandes.
O carro onde viajávamos era um Dodge Magnum (nem sei se isso existe hoje em dia) e, como o seu design não era próprio para estradas acidentadas, quando chegamos a Porto Velho, o meu pai teve que o pôr em cima de um camião, por forma a atravessar o areial no qual se tinha transformado a estrada alternativa para Manaus (sim, porque a estrada principal estava cortada por força de obras, uma vez que, no asfalto, formaram-se devido às chuvas, verdadeiras crateras intransponíveis mesmo para o camião).
A segurança rodoviária era algo de que não se falava muito naquela altura, e lá fomos nós, dentro do carro, em cima do camião.
Bem... na verdade não fomos muito longe (nem chegamos a Humaitá, no Amazonas)... isso porque a estrada estava tão mal que nem o camião passava.
Assim, durante 29 dias, fizemos de um posto de beira de estrada a nossa morada. Era o posto Piquiá, onde não se viam muitas caras novas, excepto as nossas, as de alguns outros viajantes na mesma situação e as dos seus moradores. Foram umas interessantes férias (forçadas) que tiramos. Passamos a dormir em tendas, a comer peixes que nós próprios pescávamos, a passear bastante, a brincar (afinal, a minha irmã e eu éramos ainda crianças).
Quando chegou a notícia de que a estrada já dispunha de condições para passarmos, levantamos acampamento e lá fomos nós... Lembro-me que no primeiro dia conseguimos viajar 7 km. É verdade! Foram 7 "longos" km o dia todo... isso porque a estrada não tinha as condições que pensávamos e os homens tinham que parar poucos metros depois de arrancar com os carros para tapar os buracos com pás e mais pás de terra, de modo a que não se partissem as peças dos veículos ao atravessá-los.
Não me lembro quanto tempo levamos para chegar a Manaus, mas chegarmos lá foi um grande alívio, porque a estrada a partir dali não era tão má, e já podíamos tirar o carro de cima do camião (esqueci de mencionar que o carro havia entrado de marcha à ré no camião, o que nos obrigou a viajar de costas durante todo o percurso).
Bem, passamos uns dias em Manaus para descansar e compor algumas peças do carro que entretanto não estavam muito seguras, e seguimos viagem logo que pudemos.
De Manaus a Boa Vista, em Roraima, a viagem correu mais ou menos normal... mas houve um episódio digno de menção: tivémos problemas com o carro. Isso por si já era mau... mas o facto é que o problema se deu dentro da reserva indígena local (a estrada, se não me engano a BR 174, corta uma reserva, sendo que há - ou havia, naquela altura - um grande portão à entrada e outro à saída, que eram fechados durante a noite, período em que não era permitido o trânsito automóvel).
Todos os motoristas de camião que por nós passavam e paravam para ver se precisávamos de ajuda, avisavam para sairmos de lá (com visível expressão de preocupação), porque, segundo eles (que conheciam bem o território, já que faziam com frequência aquele caminho), os nativos tornavam-se violentos com o cair da noite. O certo é que sem carro não poderíamos sair, o concerto estava a levar mais tempo que o previsto... e a noite estava a cair. Em pouco tempo, os portões seriam fechados.
O meu pai teve a brilhante ideia de pedir guarida na sede da reserva, que não era muito longe dali.
Logo à entrada, notamos que eles tinham um rádio de pilhas ligado a tocar um forró (as "novas tecnologias" ao serviço da integração entre os povos), alguns estavam a dançar, e haviam umas mulheres vestidas apenas com a parte de baixo e com duas ou três crianças "penduradas" à cintura.
Por acaso até foram muito simpáticos, deram-nos uma tenda (acho que o nome é maloca) feita de palha para passarmos a noite (e pediram que pela manhã, logo que o carro estivesse pronto, nós partíssemos), deram-nos carne de caça para cozinharmos e mostraram-nos alguns dos seus "instrumentos".
Refiro-me a umas lanças que estavam encostadas a um canto da maloca, e que uma das meninas do nosso grupo (a Dora), a tentar meter conversa com uns jovens índios que, tal como nós, estavam curiosos com a novidade, decidiu perguntar acerca da sua função:
- Isso é uma arma interessante... Serve para matar os animais que vocês comem?
Resposta do nativo:
- Sim, mata os animais... e mata gente também!
Escusado será dizer que a Dora não perguntou mais nada... e nem o porco do mato oferecido por eles para o jantar ela quis provar... Eu cá não entendi! A carne estava tão boa...

sábado, 22 de novembro de 2008

Sorte? O que é a sorte?


Quando o meu filho era pequeno, o pai dele e eu revezávamo-nos à noite para lhe contar histórias. Lembro-me que certa vez, após a velha fábula da “Cigarra e da formiga”, o meu pequenino achou que eu era a melhor contadora de histórias de todos os tempos. A partir daí, a fábula tinha que ser contada todas as noites.
Já farta do mesmo roteiro, tentei encontrar alternativas melhores, e lembrei-me de lhe contar alguns episódios da minha infância, onde não pude deixar de incluir as histórias das minhas viagens. Na verdade, não eram simples viagens de férias, eram viagens de mudança… sim, porque por razões de trabalho do meu pai, frequentemente, às vezes mais do que uma vez por ano, mudávamos de cidade (e até de país). Foi assim desde sempre. Até a faculdade, não me recordo de passar mais do que três anos, três meses e três dias no mesmo lugar (foi o tempo que vivemos em Boa Vista, Roraima, no Norte do Brasil... coincidência ou não, um número engraçado para recordar).
Certa noite, ao fim de mais uma história de viagem/mudança, oiço do meu filho a seguinte pergunta inocente:
- Mãe, porque eu também não “sou assim”?
O que ele queria saber era o porquê de não andar sempre a viajar, tal como a mãe. De qualquer forma, embora tenha sido clara a pergunta e a intenção dele, dado o visível fascínio que sentia pelas histórias, aquele “porque eu também não sou assim” soou-me estranho, como que a insinuar que “ser assim” era algo que se pegasse, algo contagioso, algo mau. Saiu-me, imediatamente, a seguinte resposta, ao mesmo tempo em que lhe dava um beijo de boa noite e aconchegava-lhe o lençol:
- Tu não és “assim” porque tiveste sorte.
Tenho a certeza que ele não compreendeu o que eu quis dizer (nem eu mesma sei o que quis dizer). Mesmo assim, deitou-se e dormiu “como um anjinho”, tal como o fazia todas as noites. O certo é que passado pouco mais de um ano desse dia, estávamos a mudar para o Continente Africano, e isso foi um grande acontecimento na vida dele… diria até que foi uma grande sorte…

Lembranças da Infância

As lembranças da infância são como os sonhos… estão vivos e frescos na memória quando acordamos, mas com o avançar do dia tornam-se cada vez menos nítidos.
Se quisermos contar um sonho interessante ao fim de algumas horas de acordar, geralmente temos duas opções para as partes que não nos lembramos… ou dizemos que não sabemos o que aconteceu a seguir, ou preenchemos os espaços em branco com uma mistura de criatividade aliada ao que achamos que aconteceu. Ao fim de um tempo, já não sabemos o que é imaginação e o que é realidade. E se repetirmos a história mais que uma vez, acreditamos que foi mesmo assim que sonhamos.
Esse mistério encanta-me. A realidade misturada a algo que gostaríamos que tivesse acontecido e que, no fim, não sabemos se aconteceu mesmo ou não.
Assim são as recordações da nossa infância… histórias reais quanto baste, que fazem viajar quem as ouve ou, nesse caso, quem as lê. Verdadeiras ou não… isso tem alguma importância?